24/09/2021 às 12h50min - Atualizada em 24/09/2021 às 12h50min

ARTIGO: Guilhotina para os revisores insensíveis, por Giovani Marino Favero

A ciência é fria, não aceita a paixão do pesquisador pela sua obra. Assim, um trabalho é facilmente rejeitado se não entra nos critérios do avaliador

Por Giovani Marino Favero
Foto: Reprodução
O produto final da maioria dos trabalhos de um pesquisador é a divulgação dos seus resultados, geralmente através de revistas científicas, que, quanto maior o seu impacto de qualidade e divulgação, torna a pesquisa mais difundida e utilizada. 

Engana-se quem pensa que essa etapa é simples. Além da proximidade e a perfeição na escrita, na maioria das vezes em inglês, a síntese e a demonstração da importância do achado são essenciais para se conseguir êxito.
 
A ciência é fria, não aceita a paixão do pesquisador pela sua obra. Assim, um trabalho é facilmente rejeitado se não entra nos critérios do avaliador. O aceite do artigo passa por várias etapas. Primeiro, o editor tem que considerar o texto enviado, podendo rejeitá-lo de imediato. Se prosperar dessa primeira apreciação, o trabalho passará por três revisores, que são pesquisadores com histórico de conhecimento relacionado ao escopo da revista. A decisão pode ser unânime ou 2/3 a favor ou contra, e o artigo tem então a possibilidade de aceite da forma enviada, aceite com mudanças obrigatórias, aceite com alterações sugeridas ou rejeitado.
 
Em 2015, iniciamos a saga de tentar publicar um artigo baseado na defesa de dissertação de uma brilhante aluna. O projeto e, consequentemente, o trabalho era conceitual, com muitos experimentos em cultura de células e em camundongos. Uma quantidade relativamente grande de resultados que, na paixão pela pesquisa do orientador, seria facilmente publicado. Estamos em 2021 e, após doze submissões, o artigo ainda não foi aceito. 
 
Resolvi rever o parecer de um dos grupos de revisores ontem, a avaliação que mais me deu raiva, a ponto de querer arrancar a cabeça do parecerista. O artigo foi avaliado com “Aceito com modificações obrigatórias”. Corremos atrás para fazer novos experimentos solicitados, com um empenho de quase seis meses. O que não foi viável realizar na bancada do laboratório foi justificado com uma boa revisão de literatura. Fizemos o que foi possível, e a reposta dessa vez foi gélida, uma recusa simples. 
 
Escrevo esse texto, pois o acaso interveio hoje pela manhã. Tenho um livro antigo que fala sobre os gigantes da ciência e costumo ler sempre que o vejo. Para a minha surpresa, a marcação parava em Lavoisier.
 
Lavoisier é considerado um dos pais da moderna Química. É dele a famosa expressão “Nada se cria, nada se perde”. Dentre seus inúmeros feitos, destacam-se a descrição e o batismo do Hidrogênio e do Oxigênio. Ele acreditava que todos os ácidos possuíam oxigênio; assim oxys significa "ácido" e gen vem de "gignomai", que é "produzir" em grego. Em relação ao hidrogênio, hydro é água em grego. Uma de suas interessantes reflexões: “É sempre de admirar que a água, formada de hidrogênio, que pega fogo tão prontamente, e de oxigênio, sem o qual nada pode queimar, apague a maioria dos fogos.” Foi também Lavoisier quem provou pela primeira vez que o carvão e o diamante possuíam a mesma composição química. 
 
A genialidade desse cientista fez com que ele transitasse entre diferentes saberes. Fez estudos em Economia, Geografia, Estatística, entre outros. Destaca-se o seu tratado “Sobre a riqueza territorial da França”, reimpresso em 1791 quando ele era presidente do Banco da França.
 
Para a tristeza da humanidade, Lavoisier foi preso com a Revolução Francesa, acusado de Fermiers Generaux, ladrão que espoliava o povo. Foram realizadas inúmeras petições para que ele fosse libertado, mas foi à guilhotina em 8 de maio de 1794.
 
O responsável pela acusação, prisão, pena e manutenção da decisão foi Jean-Paul Marat, um dos chefes da Revolução Francesa. O interessante é que Marat era pesquisador e teve o seu tratado de Química submetido à Academia Francesa de Ciência em 1790. O revisor, Lavoisier, rejeitou o seu trabalho.  
 
GIOVANI MARINO FAVERO é pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) e escritor

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