09/03/2021 às 15h01min - Atualizada em 09/03/2021 às 15h01min

Artigo: Cultura, economia e distanciamento social, por Everson Krum

Nossos cientistas correm contra o tempo para viabilizar a vacinação em massa, mas também é preciso usar a ciência para termos uma sociedade mais informada e consciente

Por Everson Krum
Foto: Divulgação
É fato: para conter o avanço da COVID-19 no Brasil, é preciso unir isolamento social e vacinação em massa. Qualquer outra combinação não trará resultados efetivos para o principal objetivo, que, neste momento, é diminuir a contaminação e, consequentemente, a demanda de pacientes que precisam de leitos clínicos e também de UTIs (Unidade de Terapia Intensiva). Mas afinal: quais motivos nos levam a tanta dificuldade em garantir distanciamento social diante de uma doença que é, notadamente, perigosa e mortal?

A minha experiência em gestão hospitalar, saúde pública e gestão pública me fazem enxergar, ao menos, dois motivos centrais: um de cunho financeiro e outro de cunho cultural. O primeiro (financeiro) diz respeito às necessidades econômicas de parte sensível da população - essa faixa da população que trabalha ou mesmo é dona de pequenas e micro empresas que foram atingidas em cheio pelo distanciamento social e pela diminuição na circulação de pessoas, algo que se arrasta há pelo menos um ano. 

Esse quesito econômico ganha contornos ainda mais graves quando notamos que não há apoio do Governo Federal a esses pequenos e médios empresários, muito menos aos trabalhadores informais. Não podemos pensar que o Auxílio Emergencial, aprovado por pressão do Congresso e que já é passado, possa ter representado uma política pública efetiva para sustentar o distanciamento social e seus desdobramentos econômicos em um país tão desigual quanto o nosso em 2021. 

O segundo (cultural) têm raízes mais profundas na nossa formação social e também explicações de cunho psicológico. Acredito que há uma tendência psicológica de adaptação à proibição, que faz com que progressivamente passemos a discordar e questionar algumas privações, o que é ótimo no ambiente democrático, mas péssimo no cenário pandêmico. A isso se soma a falta de exemplo institucional e também um falso sentimento de segurança com o início da vacinação. É delicado cobrar do cidadão comum algo que o próprio presidente da República e outras autoridades se recusam a fazer, como usar máscara e evitar aglomerações.

Um outro fator que também influencia a questão que aqui considero "cultural" é alimentado pelas informações desencontradas e difundidas pelo próprio Governo Federal no que diz respeito ao envio de recursos para a organização prévia no combate à doença. É preciso entender que os recursos enviados pela União são pífios quando pensamos no enfrentamento de uma pandemia com um sistema público de saúde e que atinge uma parcela muito grande da população "ao mesmo tempo".

Aos fatores culturais e sociais soma-se ainda uma outra falsa sensação: "isso não é comigo". Em Ponta Grossa, por exemplo, apesar de termos um grande número de casos, proporcionalmente a doença atingiu até agora cerca de 6% da população (24 mil casos) e 0,12% de mortos (432) em relação a população de 355 mil pessoas da cidade. Isso nos leva à sensação de distância da nossa realidade usual, em um processo de "não é comigo" e de negação daquilo que é óbvio.

A partir dessas duas esferas (econômica e cultural) e também dos quesitos que as influenciam, podemos entender os porquês de parte da população questionar o distanciamento e até mesmo a própria vacinação. Para os dois casos, a resposta está na ciência, em diferentes campos do conhecimento.

Entendo que é preciso políticas públicas econômicas para garantir sobrevivência financeira aos nossos cidadãos, ao mesmo tempo que é preciso usar outros conhecimentos científicos para conscientizar os nossos sobre a realidade que vivemos. De um lado, os nossos cientistas correm contra o tempo para viabilizar a vacinação em massa, mas também é preciso usar a ciência para termos uma sociedade mais informada e consciente.

EVERSON KRUM é vice-reitor da UEPG e ex-diretor do HU-UEPG



Notícias Relacionadas »