01/10/2021 às 09h37min - Atualizada em 01/10/2021 às 09h37min

ARTIGO: Elizabeth decola para Dubai: tempestade em copo d'água ou crise anunciada?, por Afonso Verner

Prefeita de Ponta Grossa fará viagem ao exterior no começo deste mês acompanhada de comitiva; agenda tem sido questionada

Por Afonso Verner
Foto: Divulgação
Na última segunda-feira (27), a Câmara Municipal de Ponta Grossa (CMPG) deu o aval para a viagem da prefeita da cidade, Professora Elizabeth Schmidt (PSD), à cidade de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos. A aprovação foi tranquila em termos de votos, mas tem causado questionamentos nas redes sociais. Diante disso, esse artigo se propõe a refletir sobre a questão: é para tudo isso mesmo ou isso é tempestade em copo d'água?

Para respondermos essa questão, é preciso primeiro refletir sobre o vetor da polêmica. O foco do debate em torno da viagem não é a ida em si, mas o pagamento de diárias. Elizabeth, um secretário e um assessor que compõem a comitiva pediram o pagamento de R$ 38 mil em diárias -- o trio participará da Expo Dubai. Esse custo é apenas para os "gastos rotineiros da viagem", sem levar em conta as passagens aéreas que devem custar mais de R$ 3,5 mil para cada um deles apenas na ida, sem contar a volta.

Com isso, cabe lembrar que o pagamento de diárias é um expediente polêmico, mas não raro. O próprio Legislativo, órgão que autoriza a viagem da prefeita, paga diárias para os vereadores em viagens dentro do Paraná (neste caso o valor da diária é de R$ 250,00) e R$ 350,00 para viagens fora do estado. Há no Legislativo um movimento que pede mais transparência e o fim das diárias, mas esse é assunto para outro artigo. 

Desta forma, esclarecemos o primeiro ponto: a polêmica não reside apenas no pagamento das diárias, já que essa é uma prática mais ou menos comum na política local, porém talvez resida no valor das diárias, bem acima do costumeiro. Mas e se observarmos a viagem em si: ela é novidade? A resposta é não. Em 2018, o antecessor de Elizabeth, Marcelo Rangel (hoje no PSDB), já viajou à China também em uma missão oficial. 

Com isso, não é inédito que um prefeito vá ao exterior e não é raro o pagamento de diárias. O que mudou? A resposta é simples: mudou o contexto. O mundo enfrenta uma pandemia em que o Brasil é um dos países com pior índice de combate ao Coronavírus, e os estados e municípios penam para arcar com suas obrigações básicas. Em um contexto em que falta o básico para parte da população, o custo de uma viagem internacional salta aos olhos.

Há ainda outro fator importante na receita: Elizabeth enfrenta internamente uma série de pequenas crises ou de assuntos ainda não resolvidos. Basta apenas lembrar que a prefeita teve que voltar atrás no corte do adicional de 40% no salário base dos servidores da saúde, além de ainda enfrentar um iminente aumento no valor do transporte coletivo da cidade, que ameaça os R$ 8,00.

Desta forma, me parece claro que não é uma viagem qualquer em um contexto qualquer. Há peculiaridades. Mas é preciso observar também ao redor: na vizinha Carambeí, a também prefeita novata, Elisangela Pedroso (PSB), também é alvo de uma série de críticas pelo mesmo motivo: a viagem à cidade de Dubai. No caso da prefeita de Carambeí, ela já disse que paga pela viagem com recursos próprios, o que fez com que ela fosse elogiada e que as críticas diminuíssem. Isso também mostra um padrão pouco notado na rotina política.


Ao ser obrigado(a) a pedir autorização ao Poder Legislativo para viajar e deixar o município, um(a) prefeito(a) também se expõe às críticas da oposição. Isso é normal, faz parte do jogo democrático. Cabe agora ao cidadão avaliar se a viagem se faz necessária, se o gasto se justifica ou não. Em última instância, cada um vai determinar se o caso se trata de uma polêmica ou de uma tempestade em copo d`água. 

AFONSO VERNER é jornalista, professor universitário e doutorando em Comunicação pela Universidade Federal do Paraná (UFPR)
 
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