13/10/2021 às 08h10min - Atualizada em 13/10/2021 às 08h10min

CRÔNICA: Trapalhadas involuntárias, por Mário Sérgio de Melo

Certa tarde, Armando estava entretido com suas leituras geológicas e seu inseparável cafezinho quando entrou, espavorido, o Beleza, que parecia ter visto um fantasma, ou estar fugindo de um

Por Mário Sérgio de Melo
Foto: Reprodução
Rolava a década de 1980. Naqueles tempos, o saudoso professor de Geologia da USP, Armando Márcio Coimbra, era um tipo de Secretário Geral da ONU do Instituto de Geociências. O Laboratório de Sedimentologia, onde ele passava as tardes entre incontáveis cafezinhos, era a Embaixada da ONU: todos, de todos os matizes ideológicos, de todas as posições hierárquicas, desde funcionários e alunos de graduação até postulantes à reitoria, vinham trocar ideias com o Muzambinho, aconselhar-se, desabafar, orientar-se. Eram funcionários aperreados com questões trabalhistas, alunos tratando dos conteúdos das aulas, orientandos aflitos com suas dissertações e teses, colegas professores atazanados por disputas profissionais ou desafios científicos. Alguns vinham com a intenção de saber de alguma novidade importante; com seu jeito mineiro, de bom conversador, o Armando acabava muito bem informado sobre tudo o que acontecia na universidade. Sem que tivesse intenção, era uma preciosa fonte de informações.

Galhofeiro, ele contou-me este causo, logo após ele ter acontecido, vivenciado dentro do laboratório. Disse que numa tarde estava entretido com suas leituras geológicas e seu inseparável cafezinho quando entrou, espavorido, o Jorge Hachiro (vulgo Beleza), então seu orientando de mestrado. O Beleza parecia ter visto um fantasma, ou estar fugindo de um. Bateu a porta atrás de si, mal resmungou um cumprimento, sentou-se bruscamente na banqueta do outro lado da bancada, bem em frente ao Armando, ofegante, suando, a habitual carranca ainda mais amarrada, demorou até ter coragem de encarar o professor. Este, surpreso, perguntou:

─ O que foi, Beleza?

Antes de responder, ele ainda precisou tomar fôlego, respirou fundo várias vezes:

─ Peguei o carro errado. Não era o meu!

O Armando ainda teve de repetir mentalmente a fala de seu orientando para ver se entendia:

─ O carro errado? Que carro?

─ O meu carro! Quer dizer, pensei que era o meu carro, mas não era.

Diante do semblante desnorteado do professor, o Beleza continuou:

─ Meu carro tá estacionado aqui, bem em frente ao Instituto. Saí preocupado com a dissertação, abri a porta, entrei no carro. Só depois percebi que algumas coisas estavam estranhas, na hora nem dei bola. Só pensava no prazo que está acabando e no tanto de coisas que ainda tenho que incluir no texto. Só quando parei lá no farol perto do Bate Pinga, já fora do campus, é que saquei que não era meu carro; tinha entrado noutro carro...

─ Mas como que você não percebeu?

─ É um Fusca bege igual ao meu, que tá lá estacionado bem atrás do meu, aqui em frente. E as chaves abriram a porta e deram a partida, como se fosse mesmo o meu carro. Nem notei...

─ Mas aconteceu alguma coisa? Por que você tá tão assustado?

─ Não, não aconteceu nada. Mas é como se eu estivesse roubando o carro. Enquanto dirigia de volta, senti como se fosse um bandido, um fugitivo! Já imaginou se o dono percebe, aciona a polícia? Ou acontece alguma coisa e tenho de mostrar documentos? Como eu ia explicar que tinha pego por engano o carro errado?

O Armando, com sua matreirice, na hora só fez imaginar, mas depois comentou comigo: 

─ Já pensou se o Beleza tivesse que explicar aquilo? Ia preso, na certa!

Atrapalhado como era, o Beleza ia mesmo acabar sendo levado até a delegacia, antes de conseguir explicar a esdrúxula situação. Felizmente, tudo não passou de um susto. Ninguém notou aquela inconsequente distração.
 
Mas o Beleza trocou o Fusca bege, naquele tempo muito comum, por um carro menos vulgar. Não quis correr o risco de repetir a trapalhada. Ou do outro motorista levar seu carro.

MÁRIO SÉRGIO DE MELO é geólogo, professor aposentado do Departamento de Geociências da UEPG

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