18/10/2021 às 14h22min - Atualizada em 18/10/2021 às 14h22min

ARTIGO: A cegueira das cores, por Giovani Marino Favero

Passamos por uma espécie de daltonismo político, mas às avessas. O vermelho, verde e amarelo encontram-se tão em evidência, que as pessoas adeptas às ideologias que hoje representam querem enxergar somente a si mesmas, não suportando a visão das outras cores

Por Giovani Marino Favero
Foto: Reprodução
No dia 26 de novembro de 2016, eu estava a caminho de mais uma rodada do campeonato de futebol do clube. Era um dia de sol forte e, ao sair de casa com o carro, abri o porta-luvas para pegar os óculos de sol. No meio da bagunça, junto aos óculos, encontrei uma fita isolante. Chegando ao local da partida, peguei a fita, tirei um pedaço, envolvi ao redor da manga da camisa e falei com os colegas de time que iríamos jogar com uma tarja de luto em homenagem ao líder Fidel Castro, falecido no dia anterior. A maioria dos amigos topou a brincadeira e o rótulo de comunista, constantemente atribuído a mim fora dos domínios da universidade, ganhava mais um capítulo.
 
Em setembro de 2018, fui convidado a atuar em um cargo administrativo dentro da instituição estadual na qual sou concursado. Pronto, passei a ser rotulado como governista, defensor de todas as estratégias e políticas "direitistas" adotadas pelo Governo do Estado dali em diante.
 
Nesse período, os rótulos ainda eram direita e esquerda, e as cores vermelho, amarelo e verde ainda não estavam em evidência. 
 
A atuação administrativa consome a maior parte do tempo, porém, em três anos, consegui manter minhas atividades de pesquisa em funcionamento e, fazendo uma reflexão agora, até ampliei as mesmas. Tive várias conquistas com novas técnicas de experimentação e projetos com uma grande aplicação social, conseguindo assim manter o foco na menor fração que me pertence, o laboratório.
 
John Dalton foi um dos maiores nomes da ciência. Em várias listas, é retratado entre os cinquenta mais importantes pesquisadores da história da humanidade. Nascido em uma pequena cidade inglesa, Eaglesfield, em 1766, mostrou sua genialidade logo cedo. O seu talento foi reconhecido ainda na infância e, aos doze anos, teve autorização para abrir sua própria escola. 
 
Em um período de grande efervescência do conhecimento, Dalton dedicou-se a várias áreas, com destaque para o seu primeiro tratado de Meteorologia e suas descobertas na Física e Química.
 
Como químico, ele era defensor das pequenas matérias, os átomos. Segundo ele, essas eram partículas reais, descontínuas, indivisíveis de matéria e permaneceriam inalteradas em reações químicas, sendo cada átomo de um mesmo elemento igual entre si. É dele a avaliação de que o peso dos compostos é igual à soma dos pesos dos átomos dos elementos que os constituem. Sua teoria atômica foi amplamente difundida na época e ele foi condecorado pelo rei da Inglaterra com a Medalha Real.
 
Estudou muito o comportamento dos gases e elaborou a Lei das Pressões Parciais (Lei de Dalton), onde: "Numa mistura gasosa ideal de n componentes, o comportamento de cada componente é independente dos demais, e cada uma ocupa todo o volume disponível, implicando que a pressão total seja igual à soma das pressões parciais de cada componente". 
 
Até hoje, em Manchester, cidade onde ele desenvolveu a maioria de suas pesquisas, existem várias homenagens e premiações com seu nome.
 
Dalton é importante demais para a história da ciência e um detalhe chama a atenção. Em 1794, ele descreveu o fenômeno da "Cegueira Congênita das Cores", uma observação na dificuldade de diferenciar cores básicas. Ele era portador dessa anomalia, e sua explicação rendeu o batismo dessa condição, o daltonismo.
 
Hoje essa condição também é chamada de discromatopsia, e atinge cerca de 5% da população mundial, e milhões de brasileiros. A interferência na percepção visual faz com que a pessoa não consiga identificar uma das cores vermelha, verde ou azul. Existem denominações para quem não percebe essas três cores: protanopia não percebe o vermelho; deuteranopia não identifica a cor verde; e tritanopia quando não capta o azul.
 
Retornando à política atual do país, passamos momentaneamente por uma espécie de daltonismo político, mas às avessas. O vermelho, verde e amarelo encontram-se tão em evidência, que as pessoas adeptas às ideologias que hoje representam querem enxergar somente a si mesmas, não suportando a visão das outras cores. 
 
Talvez devêssemos perder menos tempo com cores e focar mais na menor fração que nos pertence.
 
GIOVANI MARINO FAVERO é escritor e pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) 

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