20/10/2021 às 13h41min - Atualizada em 20/10/2021 às 13h41min

ARTIGO: Está tudo bem não estar sempre bem, por Jussara Prado

A positividade tóxica nega, e até invalida, os sentimentos que vivenciamos em situações que são mais desafiadoras do que as normais. O problema é que, quando eu tento disfarçar o meu sofrimento, eu sofro ainda mais

Por Jussara Prado
Foto: Reprodução
Quem nunca ouviu a frase "Ah, mas se você pensar positivo..." logo após desabafar sobre algo que não estava nada legal na própria vida? Ou já se deparou com aquela pessoa que, em vez de nos ouvir e acolher, acaba soltando um "Mas pelo menos...", fazendo com que nos sintamos um saco de lixo por reclamarmos de algo que aparentemente não parece ser motivo de reclamação? 
 
Péssimo, não é? Isso, caro leitor, cara leitora, é a tal da positividade tóxica – ou positivismo extremo. É o ato de impor aos outros, e até a nós mesmos, uma atitude falsamente positiva, mesmo que a situação não possua nenhuma característica positiva com a qual possamos nos contentar. 
 
O ser humano possui uma gigantesca paleta de emoções, e, dentro dessa paleta, não existem somente emoções coloridinhas e bonitinhas. Existem também a tristeza, a raiva, a frustração, a inveja, a ansiedade, a mágoa, o medo... E todas essas emoções são importantes para a nossa sobrevivência, pois cada uma nos diz algo sobre nós, sobre o que estamos vivendo e sentindo. O medo, por exemplo, como uma das emoções mais primitivas, serviu, e ainda serve, para nos ajudar com a autopreservação. Imagina só você se você sempre se expusesse a situações de risco sem ter medo algum? Coisas terríveis poderiam acontecer. 
 
O problema da positividade tóxica é que ela nega, e até invalida, os sentimentos e aspectos emocionais que vivenciamos em situações que demonstram ser mais desafiadoras do que as demais. E esse discurso, além de não ser natural, revela um grande problema presente na sociedade, pois é esse tipo de discurso que ajuda a manter a economia em movimento. Se eu estou sempre buscando alguma migalha para me agarrar e pensar positivo, eu continuo em movimento. Continuando em movimento, eu continuo trabalhando e gerando lucro para o meu empregador. Não é à toa que, de uns tempos para cá, tenham surgidos tantos coaches pregando o positivismo extremo no ambiente corporativo. O problema é que, quando eu tento disfarçar o meu sofrimento, eu sofro ainda mais.
 
A vida é feita de fases, de ciclos, de altos e baixos, como uma montanha-russa, que sobe e desce, coloca-nos de cabeça para baixo, faz diversas curvas para todos os lados e depois retorna ao começo. E lá vamos nós outra vez.
Não somos máquinas, muito menos robôs. Mas o capitalismo, os empresários e os coaches insistem em nos fazer acreditar que podemos trabalhar enquanto eles dormem, estudar enquanto eles descansam... Poder, até podemos, mas não saímos ilesos disso.

Está tudo bem não estar bem. Isso é normal. Há dias em que já acordamos mal. Afinal, somos seres humanos complexos e maravilhosos, cheio de emoções, que precisam de cuidados. 
Sentir tais emoções não precisa ser motivo de vergonha. É, inclusive, perigoso ignorarmos o que estamos sentindo, pois isso pode prejudicar a nossa habilidade de lidar com as próprias emoções. A longo prazo, esse comportamento pode se transformar em uma bomba-relógio e causar uma explosão muito maior do que deveria. 
 
Se precisar chorar, chore. Se precisar parar, pare. Se precisar descansar, descanse. E, se precisar desistir, desista. Está tudo bem não estar sempre bem. E, se não estiver bem, procure a ajuda de um profissional da saúde mental.

JUSSARA DORETTO BENETTI DO PRADO é psicóloga (CRP 08/25852). E-mail: jussaradbprado@gmail.com. Telefone: (42) 9-9827-3225. Instagram: @psicologa.jussaraprado
 

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