11/03/2021 às 10h29min - Atualizada em 11/03/2021 às 10h29min

Artigo: Indústria da cura e pseudociências, por Dayane Machado

Formadas por terapias alternativas que misturam espiritualidade, fenômenos paranormais e conceitos emprestados da ciência, as pseudociências formam uma “indústria da cura” tão lucrativa quanto a farmacêutica

Por Dayane Machado
Foto: Eduarda Degraf
Você já deve ter recebido um panfleto ou publicidade com promessas e soluções fáceis para resolver questões emocionais complexas, como, por exemplo, “Desbloqueie as suas crenças limitantes” ou “Revolucione a sua vida com energias incríveis que estão mudando a realidade de muitas pessoas”.

Formadas por diversas terapias alternativas, que misturam espiritualidade, fenômenos paranormais e sobrenaturais, acrescidas de alguns termos e conceitos emprestados da ciência, as pseudociências formam uma “indústria da cura” tão rica e lucrativa quanto a farmacêutica. 

“A pseudociência não precisa ser explicada, porque é mentira. Então, é mais fácil, você coloca ela ali e quem quiser aceita”, diz a pesquisadora Natália Pasternak, PhD em Microbiologia. Ela explica que as pseudociências despertam a atenção do público porque soam mais atraentes ao serem explicadas.

Quer um exemplo? Uma das técnicas famosas que promete curas através de descargas energéticas, utilizando toques em pontos específicos do crânio, foi criada por um homem que diz ter recebido mensagens de uma sociedade alienígena. Os extraterrestres teriam passado a mensagem de 32 pontos que teríamos no cérebro e que, segundo a teoria, podem ser “desbloqueados”, resolvendo praticamente qualquer problema de ordem psicológica. 

Para se ter uma ideia da baixa qualidade dos serviços prestados pelas pseudociências, a formação mais longa dessa categoria leva 12 semanas (eu mesma me dei ao trabalho de pesquisar)! Algumas ensinam à distância e formam terapeutas em apenas cinco horas! E a maior parte desses cursos não requer ao menos formação de ensino superior.

Essa é a qualificação de alguns terapeutas que usam propagandas apelativas e, sem ter quem fiscalize, atraem pessoas que estão fragilizadas emocionalmente. Vamos falar em termos de probabilidade: qual é a chance de isso dar certo?

Você pode perguntar: “E se houver um artigo sobre o assunto?” Ainda assim não quer dizer que seja confiável. “É importante que as pessoas entendam os mecanismos da ciência para que elas não sejam tão facilmente manipuladas”, comenta Pasternak. Busque revisões sistemáticas, estudos randomizados, observe o tamanho da amostra. Esses são alguns filtros importantes quando procuramos evidências científicas em um artigo.

Erros existem em todas as áreas e profissões. Muitos que oferecem tratamentos alternativos podem até ter boas intenções, o que não quer dizer que o seu serviço seja eficaz. Se você consultar um profissional cadastrado no Conselho Regional de Psicologia, por exemplo, que fez cinco anos de graduação e mais dois de especialização, terá a quem recorrer. O que não acontece em todas as outras áreas da saúde que prometem tratar e curar transtornos mentais com métodos não científicos, energéticos e holísticos. 

Vejo que as pessoas em sofrimento estão buscando uma forma de alívio imediato e uma cura para transtornos mentais. Alguns querem uma experiência mágica e transformadora. Como profissional da saúde mental, preciso alertar que a cura para transtornos de humor e ansiedade não existe. Nesse campo, falamos em remissão dos sintomas, manejo e tratamento. Há formas de viver bem, apesar da desordem psicológica. Por isso, quando você ver um “terapeuta” prometendo “curar”, entenda que ele não está falando de ciência, não há evidências empíricas embasando a sua prática. Em qualquer área científica, não importa se é Medicina, Física ou Psicologia, a ciência é uma só. Não existem muitas ciências. Ou é científico, ou não é. 

“Aliviar a dor, seja física ou emocional, é o que a ciência mais quer. E trabalhar com ciência, a meu ver, é o auge do humanismo. Afinal, oferecer um serviço validado cientificamente confere a ele maior probabilidade de ter resultados positivos, sem causar danos. Trabalhar com evidência científica é usar o melhor tratamento disponível da atualidade”, aponta Fernanda Landeiro, doutora em Saúde pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). 

Os tempos atuais são propícios para desordens emocionais e psicológicas de todos os tipos. Então, quando for buscar um profissional para tratamento de ansiedade, depressão e outras desordens psicológicas, verifique a formação, pergunte sobre a abordagem que ele segue, quais são as suas técnicas, pesquise em fontes confiáveis. Quer saber qual tratamento psicológico tem evidências científicas? Acesse o site www.div12.org. A Sociedade de Psicologia Clínica Americana apresenta uma lista de tratamentos para cada um dos transtornos mentais.

7 verdades sobre tratamentos psicológicos

1. “Terapeuta” não é psicólogo

2. Não existe cura em transtornos mentais. Se você ver essa promessa, saia correndo!

3. Promessa de cura milagrosa é crime

4. Um psicólogo estuda, no mínimo, por cinco anos, enquanto um “terapeuta” pode assim se intitular sem ter nenhum conhecimento científico 

5. Os psicólogos têm um conselho específico para fiscalizar a sua prática, o que não ocorre com outros terapeutas holísticos e ‘coaches’ quânticos

6. A famosa “barra de acess” é uma pseudociência baseada em conhecimentos transmitidos por extraterrestres, segundo o próprio autor, Gary Douglas

7.  Quer saber qual tratamento psicológico tem evidências científicas? Acesse o site www.div12.org. A Sociedade de Psicologia Clínica Americana apresenta uma lista de tratamentos para cada um dos transtornos mentais

DAYANE NOWAKOWSKI MACHADO é psicóloga e atende em Ponta Grossa 


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