25/11/2021 às 08h02min - Atualizada em 25/11/2021 às 08h02min

CRÔNICA | Incansáveis fábricas de Senhores Valdemar, por Giovani M. Favero

Diante da popularização das UTIs, não há como não pensar que existe uma quantidade de Senhores Valdemar mesmerizados esperando o fim de suas hipnoses

Por Giovani Marino Favero
Foto: Reprodução
Em dezembro de 1845, foi publicado no ‘Broadway Journal’ e no ‘The American Review’ um conto de suspense e horror do escritor Edgar Allan Poe, intitulado “O Caso do Sr. Valdemar”.

O brilhante texto conta a história do magnetismo animal (mesmerismo) do Sr. Valdemar poucas horas antes de sua morte. 

A principal diferença entre o mesmerismo e o hipnotismo é que no primeiro acontece interação física com toques e movimentos, enquanto no hipnotismo não. A técnica foi desenvolvida pelo médico alemão Franz Mesmer no século XVIII.

No conto, o Sr. Valdemar é mesmerizado poucas horas antes de sua morte e fica nesse estado de transe hipnótico por sete meses. Quando questionado sobre o seu estado, no início ele responde que estava vivo, porém, com o passar do tempo, ele responde que está morto e que algo precisa ser feito. Após intenso estudo dos médicos e de uma decisão final, ele é retirado do estado de transe e o seu corpo derrete em segundos.

Essa história ficou na cabeça das pessoas e causou certo pânico na Inglaterra, onde o conto foi impresso e distribuído de maneira ilegal, levando muitos a acreditarem que a história fosse verdadeira.

O conto de Poe foi escrito nove anos antes da criação do conceito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Os relatos mostram que esse conceito de local separado, com isolamento individual para doentes graves, surgiu em 1854, na Guerra da Criméia. A sua fundadora, Florence Nightingale, é considerada pioneira da enfermagem moderna. Além da separação dos doentes graves, ela instituiu a vigilância contínua, dia e noite, e ficou conhecida como a “Dama da Lâmpada”, já que usava a lamparina para observar os pacientes no período noturno. Essa marca acabou por gerar o simbolismo da assistência internacional da enfermagem, a lamparina.

A denominação UTI só veio a acontecer em 1927, em Boston (Estados Unidos), com o trabalho do médico neurocirurgião Walter Dandy. Nessa mesma época, foi criado o ventilador mecânico e outras técnicas foram surgindo. Na década de 50 do século passado, o Dr. Peter Safar se tornou o primeiro médico intensivista, criando o atendimento de urgência-emergência e as técnicas de ventilação artificial boca a boca e massagem cardíaca externa.

As ideias e práticas foram se espalhando e, em 1972, foi criada a Associação Mundial de Medicina de Emergência. 

Hoje, o Brasil conta com aproximadamente 70 mil leitos de UTI com uma grande quantidade de vários profissionais envolvidos. A evolução dos equipamentos e técnicas tem ampliado a sobrevida das pessoas. Há relatos de pacientes inconscientes mantidos vivos há décadas graças à tecnologia e aos cuidados das equipes de enfermagem e médica, que “mesmerizam” os seus pacientes pensando sempre na manutenção da vida.

Durante a pandemia de COVID-19, tornaram-se comum imagens de pacientes acamados, de UTIs sendo criadas rapidamente, de doentes que ficaram por meses em coma induzido e, obviamente, das mortes.

As UTIs salvam muitas pessoas diariamente e, sem dúvida, estão entre as maiores evoluções da medicina. Contudo, diante da popularização da UTI, não há como não pensar que existe também uma quantidade de Senhores Valdemar mesmerizados esperando o fim de suas hipnoses. 

GIOVANI MARINO FAVERO é escritor e pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) 

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