29/11/2021 às 16h42min - Atualizada em 29/11/2021 às 16h42min

ARTIGO | Trabalhe enquanto eles dormem (e tenha uma crise de ansiedade), por Jussara do Prado

"Produtividade tóxica" significa um excesso de preocupação e dedicação com o trabalho, uma forma de otimizar o tempo laboral que chega a prejudicar as horas de descanso e, consequentemente, a saúde mental

Por Jussara do Prado
Foto: Reprodução
“Trabalhe enquanto eles dormem, estude enquanto eles se divertem, persista enquanto eles descansam. Depois viva o que eles sempre sonharam.” Ou, quem sabe, tenha uma boa crise de ansiedade.

Essa frase é muito usada no meio corporativo para incentivar a produtividade dos colaboradores. É possível encontrá-la em diversas páginas de empreendedorismo, coaching e afins. Mas você sabe qual é o problema que ela carrega? Chama-se produtividade tóxica. Esse termo denomina um excesso de preocupação e dedicação com o trabalho, uma forma de otimizar o tempo laboral que chega a prejudicar as horas de descanso do colaborador e, consequentemente, a sua saúde mental.

A produtividade tóxica sempre existiu no sistema capitalista, dentro do qual vendemos o nosso tempo, esforço e inteligência em prol do capital (dinheiro) para prover as nossas necessidades. Mas a expressão voltou à tona recentemente em razão da pandemia, que forçou muitas pessoas a adotarem o home office (“escritório em casa”, em tradução literal). 

Já que no home office os gestores e líderes não conseguem “controlar” os colaboradores como fazem presencialmente, com horário de entrada, almoço e saída, a avaliação de trabalho passou a se basear na produtividade e na entrega de resultados. Sim, ainda existem empresas com uma cultura organizacional baseada no “controle” dos colaboradores. E, com isso, vieram as reuniões por videochamadas. Cada vez mais e mais reuniões por videochamadas. Aquelas reuniões, inclusive, que poderiam ser resolvidas por e-mail. Tudo para acompanhar a produtividade, os indicadores… 

Além disso, quem passou a trabalhar em home office acabou mesclando a rotina de casa com a do trabalho, o sofá com o escritório, o quarto com a área de descanso, o pijama com a roupa de trabalho. Por esse motivo, surgiu a sensação de estar trabalhando 24 horas por dia, sete dias por semana, junto à dificuldade de se permitir descansar ao menos um momento.

Se tem uma rede social que eu uso e cujo discurso não me agrada muito, é o LinkedIn. Na pandemia, o que apareceu de discurso incentivando essa produtividade tóxica… “Estude enquanto eles descansam, trabalhe enquanto eles dormem…” Todas essas coisas de coaches charlatães.

Esse tipo de discurso traz a ideia de que se eu fizer mais, serei valorizado, se eu trabalhar mais, conquistarei mais, mas a que custo? As pessoas deixam de ter descanso, passam a trabalhar oito horas ou mais ininterruptas, sem final de semana nem feriado.

E eu não estou apontando dedos, não. Eu também me incluo nesse balaio. Na época que eu trabalhava mais de 12 horas por dia (média de 60 horas por semana em dois empregos), passei mal nas primeiras férias que tive. Em vez de descansar e curtir, estava preocupada com os clientes, os pacientes, os meus posts, os relatórios e o quanto de trabalho ia atrasar e que eu teria de recuperar depois.

Quando alguém sabe que está morrendo, essa pessoa por acaso diz “Eu queria ter trabalhado mais”? 

Se temos horário para estudar e trabalhar, por que não podemos ter horário para comer, dormir, brincar, jogar, descansar e relaxar? Inclusive, horário para não fazer nada, já que “não fazer nada” também é fazer alguma coisa.

Por mais que tudo isso pareça simples, é difícil de ser aplicado. Quando estamos fora do horário de trabalho, queremos assistir a alguma coisa, ler, estudar, se exercitar etc. Estamos sempre pensando em fazer algo. E, quando não conseguimos fazer esse algo, nos sentimos mal, como se tivéssemos perdido tempo. E tudo isso devido à nossa cultura estar baseada no sistema capitalista de estar sempre produzindo, sempre fazendo algo.

Ser produtivo de verdade é fazer aquilo que precisa ser feito. Se não dá para fazer hoje, termina amanhã. Mas, quem não consegue agir desse modo e insiste em finalizar tudo no mesmo dia, ultrapassando os seus próprios limites físicos e mentais, passa a vivenciar essa produtividade tóxica.

Quanto mais conseguirmos organizar a nossa rotina, com tempo para trabalho, estudo, descanso, lazer e família, sem esquecer do tempo para nós mesmos e até daquele momento de não fazer nada, mais perto de uma verdadeira produtividade estaremos. E, aí, bora dormir enquanto eles dormem e se divertir junto com eles também?

JUSSARA DORETTO BENETTI DO PRADO é psicóloga com foco em autoestima e relacionamentos. Instagram @psicologa.jussaraprado

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