04/12/2021 às 15h09min - Atualizada em 04/12/2021 às 15h09min

Os estranhos fenômenos da mansão dos Bach. Por Renato Van Wilpe Bach

Segundo vô Kiko, eventos estranhos continuariam a ocorrer na residência dos Bach: passos no telhado, sussurros na noite, barulho de correntes sendo arrastadas, mais louças e talheres no chão

Por Renato Van Wilpe Bach
Foto: Reprodução
Ainda acordado, a despeito do horário tardio, o pequeno Kiko ouviu tudo de muito perto, pois era, dentre os irmãos, o que tinha a cama mais próxima da porta, e, por consequência, da escada. 

Começou com um barulho de vidro se quebrando, seguido do alarido da prataria e do baque dos armários tombando no chão do andar de baixo. Uma barulheira dos infernos, como se um trem tivesse entrado pela casa. 

Nada tremia, entretanto, no andar de cima, e, depois do estrondo, fez-se o silêncio.

Alexandre Bach, meu bisavô, desceu pela escada, com a lanterna a óleo acesa na mão, para encontrar copa e cozinha intactas, como se nada tivesse acontecido. 

Um a um, os meninos foram descendo, ainda temerosos, atrás dele: Haroldo Antônio, o mais velho, José Augusto e Oscar Arthur, o mais novo, futuramente meu avô, apelidado de Kiko. 

Acenderam as luzes. Nada alterado. Portas e janelas fechadas. A cozinha, os armários, a louça na pia — tudo imóvel, silente, em seu lugar.

Segundo vô Kiko, eventos estranhos continuariam a ocorrer na residência dos Bach depois disso, e por um longo tempo: passos no telhado, sussurros na noite, barulho de correntes sendo arrastadas, mais louças e talheres no chão. A família até se acostumou. Não se assustava mais com janelas e portas batendo, apenas sorria e seguia com a vida. 

“O que eu me lembro bem”, dizia Kiko, “é de uma vez em que estávamos jantando, quando bateram à porta…”

“Toc-toc-toc!”

Alexandre foi abri-la, e não havia ninguém. Voltou para a mesa, talvez imaginando ser uma brincadeira de alguma das crianças que vagavam, soltas e em grande número, pela praça, onde antes fora o cemitério principal da cidade, e pelas ruas do Centro de Ponta Grossa. 

Talvez por força do hábito, ou apenas por ser conhecedora dos mistérios de sua própria casa, dona Olga (Canto, depois Bach, minha bisavó) persignou-se discretamente enquanto abraçava os meninos. 

Assim que Alexandre tornou a se sentar, mais batidas à porta principal, que ficava afastada da rua, separada por muro e portão. 

“Toc-toc-toc!” 

Ele levantou-se imediatamente, abriu a porta, e, mais uma vez, não havia ninguém. Deu uma volta no quintal, checou a vizinhança, e mesmo na rua não encontrou viva alma. Era cedo, ainda, mas bastara escurecer para que a neblina tomasse conta das ruas próximas, criando um cenário desolado e abafado, algo tenebroso. 

Intrigado e já um pouco irritado pela situação, Alexandre bola um plano. Vai ficar atrás da porta, esperando que batam de novo, com a mão no trinco, pronto para abri-la, a qualquer momento. 

“Toc-toc-toc!”, gemeu o pinho mais uma vez, com aquela alma surda dos nós dos dedos, e logo voou, escancarado-se pela força com que Alexandre a abriu.

E, mais uma vez, não havia ninguém. 


***

Nunca esqueci das vezes em que presenciei a habilidade de Kiko para contar histórias. Leitor de vários livros por dia, meu avô era obcecado por boas narrativas e personagens. Por pouco não chamou o filho mais novo de Haramenho (nome de um personagem de Karl May); adorava faroestes de bolso, romances policiais, lia tudo que lhe caia na mão. O sofá de seu escritório na empresa que levava o seu nome jamais pôde ser utilizado, abarrotado de livros desde que me lembro.

Quando a companhia elétrica nos brindava com eventuais apagões, lá nos anos setenta, eram histórias como essas, da casa onde passara a infância, que vinham à tona, à luz de velas, sempre coroadas pelo "Romance de Uma Caveira", o clássico mais alternativo do cancioneiro sertanejo, que desde pequeno conheço de cor, cantado por meu avô, e depois, meu pai. É essa a trilha sonora que me vem à cabeça, inevitavelmente, enquanto escrevo essa história. E a imagem muito antiga de meu avô, no escuro, emanando a sombra das velas, contando causos apavorantes para os três netos, na sala de tevê da antiga casa, na Ronda, em algum momento antes de 1978, que foi quando Kiko e minha avó se separaram. 




***

Em um fim de tarde no final de 2016, levei meus filhos à antiga residência do vô Alexandre, quando já funcionava uma escola de inglês no local. Não sei se era a mesma escola de hoje em dia, talvez sim. 

A casa de colunas fora de tudo um pouco nas décadas que separam a estadia dos Bach até os dias de hoje. Até Centro de Criatividade da UEPG foi (onde tomei aulas de pintura e escultura, na adolescência), passando por uma ampla variedade de estabelecimentos comerciais. A lenda da existência de fenômenos paranormais a perseguiu, ao lado do comentário jocoso de muitos: “Nada permanece lá, deve ser assombrada mesmo”, enquanto os locatários se sucediam em ritmo vertiginoso. 

Para brincar com a hipótese, puxei conversa com as recepcionistas do curso, muito simpáticas, que se prontificaram a nos mostrar a casa toda, visto que as aulas do dia já haviam acabado. 

“O curso tem turmas noturnas?”

“Sim, mas só em alguns dias.”

“Em quais horários?” 

Papeávamos enquanto subíamos as escadas, olhávamos os quartos transformados em salas de aula e escritórios, até que paramos na cozinha (ou o que restava dela), e, de lá, fomos de volta à recepção. 

“E vocês? Já perceberam algo de estranho na casa, à noite?”

Elas riram, entreolharam-se, uma apontou para a outra e disseram: 

“Pergunta pra ela! É ela que fecha tudo antes de ir embora!”

Sem nenhuma timidez, a moça respondeu, num átimo, como quem conta um segredo:

“Coisas estranhas? Como assim? Barulhos?”

Aquiescemos, já sorrindo por antecipação — três Bach visitando a famosa mansão, imediatamente arrepiados até a medula. 

"Todo santo dia!", continuou a garota. "Correntes, marteladas, portas batendo e pratos caindo. Iiiiiih, o senhor não imagina! Mas já nem ligo mais, me acostumei!"


Alexandre Bach (1898-1973), em pé, de camisa branca, com os braços cruzados. Mais à esquerda, abaixo dele, sua esposa (é minha bisa) Olga Canto Bach (1903-1994), e, ao lado dela, tia Loth (Carlota Canto Nasser, 1896-1989). Ambas de vestido preto de mangas curtas (Foto: Arquivo pessoal) 

RENATO VAN WILPE BACH é médico, escritor e professor residente em Ponta Grossa 

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