05/12/2021 às 10h56min - Atualizada em 05/12/2021 às 10h56min

Cerca de 100 famílias ocupam terreno no Parque das Andorinhas, em PG

Segundo coordenador, ocupação decorre da situação econômica do país e da "falta de sensibilidade política" da Prefeitura; Governo Municipal diz que "invasão" é um "crime contra a sociedade" e que entrou com pedido de reintegração de posse

Da redação
Foto: Divulgação
Cerca de 100 famílias ocuparam um terreno do Parque das Andorinhas, na região do bairro Neves, em Ponta Grossa, neste sábado (4). Segundo a coordenação local da Frente Nacional de Luta Campo e Cidade (FNL), o terreno estaria abandonado pela Companhia de Habitação de Ponta Grossa (Prolar) há mais de dez anos. Outros dez áreas já foram mapeadas pela organização e podem ser ocupadas nos próximos dias. 

Conforme o coordenador da FNL em Ponta Grossa, o advogado Leandro Dias, a ocupação ‘Ericson John Duarte’ começou com cerca de 60 famílias e, em menos de duas horas, chegou a 100, com a previsão de aumentar ao longo deste domingo (5). “Não para de aparecer família precisando”, comenta Dias.

De acordo com o advogado, a decisão de ocupar o terreno partiu de duas premissas: a “desesperadora” situação econômica do país e a falta de “sensibilidade política” por parte da Prefeitura Municipal de Ponta Grossa.

“O primeiro ponto é que as pessoas estão tendo que escolher: ou comem, ou pagam aluguel, ou compram remédio… E essa escolha não deveria ser feita. As pessoas tinham que ter essas três coisas, no mínimo. A cidade está cheia de venezuelanos, haitianos, todos pedindo dinheiro na rua, muitas pessoas, famílias inteiras, perdendo emprego, indo para a rua”, afirma. 

“E o segundo ponto, evidentemente, é um protesto político. Nós estamos vendo aí inaugurarem, em Ponta Grossa, inúmeros viadutos, construções, gastando milhões e milhões, e o povo perecendo, precisando de local para morar. Então, na nossa avaliação, não falta dinheiro. O que falta é sensibilidade política e prioridade”, aponta.

Na avaliação do coordenador local da FNL, a Prefeitura viola a Constituição Federal e o Estatuto da Cidade ao não cumprir com a função social da propriedade, que, segundo o advogado, está abandonada há mais de dez anos.

“Esse são os motivos principais de estarmos ocupando. Quando a pessoa toma a decisão de ir para baixo da lona, passar o frio que nós passamos esta madrugada, significa que ela está muito disposta a lutar, muito disposta a conquistar o seu pedaço de chão”, observa. 

No local, de acordo com Dias, estão crianças, idosos, mulheres, deficientes e pessoas “sem nada de comida e condições”. “Todo apoio é bem-vindo. Quem quiser pode ajudar realizando doações financeiras, de roupas, de cobertores e de alimentos”, informa. A ocupação ‘Ericson John Duarte’ está localizada a rua Alípio Bueno, 142, ao lado do Centro de Socioeducação Regional de Ponta Grossa (CENSE-PG). 

“Crime contra a sociedade” 

Em duas notas divulgadas à imprensa, uma na noite de ontem e outra na manhã de hoje, a Prefeitura afirmou que a ocupação representa um “crime contra toda a sociedade” e que entrou com pedido de reintegração de posse na Justiça. Protocolado junto ao plantão judiciário do Fórum local, o pedido aguarda decisão judicial para a autorização da retirada das famílias do local. “Nós também iremos conversar com essas famílias, consultar se elas já estão cadastradas junto à Prolar e, principalmente, orientar sobre a continuidade de nossos programas habitacionais”, afirma a prefeita Elizabeth Schmidt (PSD). 

Nos comunicados, a gestora alegou ainda que é “mentirosa” a versão de que a extinção da Prolar interromperá a política de habitação popular e informou que os trabalhos serão assumidos pela Secretaria da Família e do Desenvolvimento Social. “Pelo contrário, a inclusão dos programas de habitação junto à secretaria terá resultados muito mais dinâmicos e certamente muitos avanços. Temos vários projetos de política de habitação para realizar e não podemos aceitar que famílias sejam enganadas pela velha política populista que tanto atrasou Ponta Grossa”, declara.

A prefeita aponta também que será aberta uma investigação para verificar e responsabilizar cidadãos responsáveis pelo “ato criminoso”. “Muitas vezes, famílias acabam sendo manipuladas politicamente por pessoas de má-fé. (...) 
Manipulação política, desinformação e má-fé estão sendo usados para instrumentalizar ações contra a administração municipal e não serão toleradas ações políticas travestidas de movimentos ‘populares’”, afirma.

Ao fim da nota enviada ontem, Elizabeth destacou que a “invasão” de áreas públicas é “um crime contra toda a sociedade, especialmente contra as famílias que estão inscritas nos programas de habitação popular”. 

“Criminosa é a Prefeitura”

Para o coordenador local da FNL, as notas da Prefeitura estão “invertidas”. “Criminosa é a Prefeitura, que largou as pessoas à míngua. São mais de 20 mil famílias aguardando na fila da Prolar. É criminoso quando você tem investimentos de milhões de reais em rotatórias, viadutos, viagens para o exterior, enquanto o povo precisa do básico, que é alimentação e moradia. E nós decidimos ocupar aquele terreno para dar um recado político mesmo à prefeita, à Prolar e aos vereadores”, observa Dias. 

O advogado comenta ainda a afirmação da Prefeitura segundo a qual a ocupação seria uma questão política “travestida de movimento popular”. “Olha, eu faço um convite à prefeita Elizabeth para visitar a ocupação. Se lá não tiver povo, com certeza na mansão dela é que não vai ter”, provoca, acrescentando que a “luta só está começando” e que mais de dez terrenos já foram mapeados pela organização.

“Se eles acham que nós vamos parar por ali, eles estão muito enganados. A nossa bandeira vermelha simboliza, durante séculos, o sangue de trabalhadores e trabalhadoras que tombaram lutando. É por eles e por elas que nós honramos a nossa bandeira e vamos seguir lutando”, conclui. 

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