30/12/2021 às 15h12min - Atualizada em 30/12/2021 às 15h12min

As sementes que já plantei e outras que ainda preciso plantar. Por Luiz Fernando Cheres

Se quiser viver, seja uma planta cheia de boas sementes, e espalhe as sementes por todos os cantos

Por Luiz Fernando Cheres
Foto: Reprodução
— A grande virtude dos sábios não é descobrir coisas novas, mas entender o que a natureza e a vida dizem sobre as coisas velhas — me ensinou o ancião Gregório Ogarenko, e é das poucas lembranças que guardo dele. Meu avô faleceu quando eu era muito pequeno. É claro: não foram exatamente essas as palavras; na confusão da memória, a gente recria as palavras, substitui as perdidas, como o azulejista faz com os vazios da antiga parede de onde caíram os azulejos originais. Na falta de azulejo idêntico, coloca outro parecido.
 
Na época, não compreendi o palavreado; no entanto, a frase era bonita, e acho que guardei na memória ao menos seus traços gerais, cobrindo os vazios com os meus melhores e bem-intencionados azulejos. No dia dessa conversa, eu, mamãe e vovô tínhamos ido ao imenso quintal da casa dele; a ideia era colher algumas frutas e verduras para o jantar da virada de ano e o almoço de primeiro de janeiro. Tempos depois, a mãe contou que aquela conversa começou porque perguntei o que era a tal festa de Ano-Novo.
 
— Ora, menino, a festa de Ano-Novo é quando nasce o novo ano e morre o ano velhinho — deve ter falado o avô, ou algo semelhante a isso, afinal as perguntas simples são as mais difíceis, e nem a mãe recordava essa parte da conversa. 
 
Com certeza, minha mãe quis descomplicar o assunto e disse que a comemoração de Ano-Novo significava o futuro, mas a conversa piorou, pois o menino curioso, na fase de perguntar tudo, fez um questionamento ainda mais cabeludo:
 
— E o que é o futuro?
 
Mamãe tentou ser didática, mostrando que o passado é aquele negócio que me fez crescer, e então virá o futuro, e o futuro me deixará velho, igualzinho ao ano velho, e o ano velho morre para um ano novo inteirinho nascer. 
 
Quase chorando, eu teria dito:
 
— Mas não quero morrer.
 
Experiente, Gregório Ogarenko não costumava deixar dúvidas no ar, buscava exemplos concretos, e desse detalhe da história nem eu, nem minha mãe nos esquecemos. Meu avô me tomou no colo e começou a me fazer conhecer as lições da natureza. Colocando as mãozinhas do neto na casca enrugada e dura de uma árvore centenária, ele disse:
 
— Você vai crescendo, e pode ficar igual ao tronco desta árvore. Ele cria uma casca dura ao redor do corpo para se abrigar dos perigos e do tempo. 
 
Segundo minha mãe, falei que aquela casca era feia, e eu não queria ficar preso numa casca. Aí, meu avô me apresentou um esqueleto de inseto, esqueleto abandonado, grudado nos galhos da árvore, e explicou que eu podia ser como o inseto que, quando cresce, abandona a sua proteção antiga, sua roupa antiga, para que outra possa nascer, maior e confortável.
 
Mas eu fiz outra pergunta:
 
— Daí o inseto nunca morre, vovô?
 
E o avô teria respondido:
 
— O inseto morre. E sabe por que o inseto morre? Olha, ele só trocou o esqueleto, a parte de fora, como se fosse uma casquinha. Mas apenas troca de casquinha, e o mais importante, o inseto de verdade, esse permanece e um dia vai morrer.
 
O menino era chato, insistente e teimoso desde aquela época:
 
— Já disse: não quero morrer, vovô!
 
Ele me pôs no chão, tirou do bolso várias sementes, nem sei de que eram, e me ensinou a colocá-las com delicadeza num pedaço de terreno preparado para o plantio. Não lembro com exatidão, mas, nas palavras de minha mãe, o velho Gregório foi explicando mais ou menos assim...
 
— Se não quiser morrer, não seja o tronco da árvore que a vida inteira se esconde dentro de uma casca dura e feiosa. A casca não protege para sempre, e ao fim a árvore morre. Também não seja o inseto. Ele troca de casca, mas por dentro continua o mesmo: com o tempo, o inseto envelhece e morre. Se quiser viver, seja uma planta cheia de boas sementes, e espalhe as sementes por todos os cantos. A semente é você, e, quando ela brotar, você renasce. Isso é o passado virando o hoje, e do hoje surgindo o futuro. Agora estamos no ano de 1965, o ano velho, e amanhã chega o ano novo, 1966. Porém, nada muda, são os grãos do ano velho germinando com o nome de novo ano. Se a gente faz algo bom, é uma semente boa que foi plantada, de vegetal doce. Fazendo coisa feia, ruim, é semente de espinho.
 
Naquela idade, eu posso não ter entendido muito bem, mas achei a história bonita, e ela ficou na memória, talvez porque mamãe invariavelmente a repetia nas viradas de ano. Hoje, tanto ela quanto vovô se foram, ou melhor, estão aqui, mas apenas nas sementes que lançaram, brotaram em mim, nos meus filhos e netos; e sempre, na virada de ano, no meio da festa e do foguetório, eu acabo ficando em silêncio por uns instantes. Minha mulher, esperando a reação já conhecida, só para fazer graça, pergunta:
 
— Por que está quieto?
 
E eu, morador da cidade e do asfalto, respondo:
 
— Não é nada. Só estou pensando numas sementes que plantei e noutras que ainda preciso plantar.
 
LUIZ FERNANDO CHERES é escritor, autor de “Um Beijo Longe dos Lábios” e “Amar não é Preciso”. Ocupa a Cadeira nº 11 na Academia de Letras dos Campos Gerais
 
 

Link
Notícias Relacionadas »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Fale com NCG News!