02/01/2022 às 09h24min - Atualizada em 02/01/2022 às 09h24min

Vô Marino, o "Avesso da Notícia" e um bilhete no para-brisas. Por Giovani Favero

Quando liguei para a pessoa que havia deixado o bilhete no para-brisas do meu carro, pensei no vô Marino: a maioria das pessoas é boa, o problema é que a maldade dá audiência

Por Giovani Marino Favero
Foto: Reprodução
Quando eu era adolescente, meu avô constantemente falava que a maior invenção do Diabo foi a televisão. Naquela época não dei muita bola, mas lembro dele argumentando rotineiramente que a partir da TV as pessoas ficaram mais preguiçosas, mais lentas, menos dispostas a ler, e o pior, cultuavam notícia ruim, viraram fanáticas pela desgraça.

Para a maioria das famílias imigrantes do início do século passado, havia muita dificuldade para que os filhos conseguissem estudar. Na década de vinte, meus bisavós, então, enviaram meu avô para o seminário e lá ele aprendeu a ler em português, latim, francês e italiano. Ele tinha livros anotados em todos esses idiomas até os seus noventa anos. Infelizmente, nessa alta idade, ele foi acometido de cegueira e virou um bom ouvinte das rádios AM de Ponta Grossa. 
 
Eu tive a felicidade de morar com meus avós paternos por um ano, em 1997, no primeiro período da faculdade. Os estilos opostos do velho casal eram intrigantes. A vó gostava de televisão, e consequentemente da fonte de tragédia diária. Todo ano ela chorava com as enchentes que acometem o país no verão. O vô, nessa época ainda com um pouco de visão, escutava o rádio e aceitava a situação da impossibilidade de leitura, coisa que era rotina para ele antes da doença ocular.
 
Todas as noites, a vó conferia as portas e janelas várias vezes para ver se estava tudo fechado e seguro. Em setembro ela viajou, ficamos eu e o vô em casa. No primeiro sábado sem ela, eu saí com os amigos e voltei de madrugada para casa. A primeira impressão foi de medo, pois todas as janelas e a porta da frente estavam sem tranca. Entrei pela porta da cozinha fazendo pose de Kung Fu. Logo na entrada tinha uma foto bem grande de Jesus com o Sagrado Coração aberto. Naquele exato momento já vi que era coisa do velho. Procurei pelos cômodos se havia alguém. Estava tudo calmo. Fechei tudo e dormi, e, obviamente, o Seu Marino me contou pela manhã que fora ele quem tinha deixado tudo daquela maneira: “Giovani, se o ladrão entrar e ver o Sagrado Coração de Jesus, ele vai desistir. Bom, se ele for católico, é claro. Se não, é tudo material, não tem nada que não possa ser comprado novamente.”
 
O tempo passou, me mudei, me formei e contei para ele que estava indo a São Paulo estudar. Não me esqueço, ele deu uma risada e comentou com uma certeza marota: “Sua avó está com medo, não? Deve ter falado de bandido e de enchente. Ela tem medo de água, acho eu.” Sim, ela falou isso mesmo. O vô Marino deu mais uma risada e me disse para fazer uma conta simples. Quantas pessoas tem em São Paulo? Falei que a grande metrópole tem próximo a 20 milhões de pessoas. Em seguida, ele indagou: quantas são más de verdade, de tirar a vida de outro? Não sei, menos de um por cento. Aí, com um sorriso discreto, ele me falou: “Vai com fé, tem mais de dezenove milhões e oitocentas mil pessoas boas por lá.” Eu ri com ele, mas fiquei contente com a sua sabedoria. 

Em mais um salto temporal, para os dias atuais, chegamos a dois anos de notícias com desgraças diárias, raramente algo de bom ganha destaque. Felizmente, desde o período do convívio com meus avós, evito jornal televisivo e sou adepto do rádio e da leitura quando o assunto é notícia. 
 
No dia dezesseis de dezembro, fizemos uma confraternização da equipe de trabalho e, quando cheguei ao carro, havia um bilhete no para-brisas: “Dei uma arranhada no seu carro. Qualquer coisa me ligue”. Havia uma machucadura no para-choque traseiro do carro. Liguei no dia seguinte, e, de uma maneira educada, a pessoa que bateu pediu desculpas e se dispôs a pagar. Fiquei surpreso e, ao mesmo tempo, pensei no vô Marino: a maioria das pessoas é boa, o problema é que a maldade dá audiência.


Em tempo, Avesso da Notícia é um livro do escritor gaúcho Aldo Colombo que aborda essa supervalorização das coisas ruins em detrimento da bondade. Era um dos livros presentes na biblioteca bagunçada do vô. 
 
GIOVANI MARINO FAVERO é escritor e pró-reitor de Pesquisa e Pós-Graduação da Universidade Estadual de Ponta Grossa
 
 

Link
Notícias Relacionadas »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Fale com NCG News!