15/01/2022 às 08h09min - Atualizada em 15/01/2022 às 08h09min

E o Gigio? E o Jejê? Aprontando muito? Por Renato Van Wilpe Bach

Quer saber a última do Gigio e do Jejê? Não vai conseguir. Você pode até saber da penúltima, mas nunca da última, porque a última, mesmo, eles devem estar aprontando agora

Por Renato Van Wilpe Bach
Foto: Reprodução
A melhor definição da dupla (que poderia ser-taneja) veio do Kapitão, uns dias depois do imbróglio, com o típico cantarolar do ponta-grossense: “Você me avise quando aqueles teus amigos vierem na tua casa, especialmente se for (sic) os dois; com um eu aguento lidar, mas os dois juntos é impossível!”

Eu, que os conheço há mais de década, só ria (com trocadilho), lembrando do motivo de tanta raiva. 
 
Era época de Copa do Mundo, e nos reuníamos desde cedo para churrasquear, esperando os jogos, que, dado o fuso horário, passavam pela manhã na televisão. Alguns amigos vinham a todos os jogos, temerosos de que a sua ausência trouxesse má sorte à amarelinha. Copa é coisa séria, toda mandinga vale — a mesma camisa, a mesma cueca, a mesma turma, o mesmo lugar. Ai de quem furar a corrente (pra frente). 
 
Ao longo das poucas semanas de futebol, tivemos a oportunidade de observar o ciclo vital do rápido romance entre o Kapitão e uma amiga em comum, do flerte ao desenlace. No último jogo, o climão do casal (jogados um para cada lado, mudos, perfeita antítese dos agarramentos anteriores) parece contaminar a partida, jogada na longínqua África do Sul, e a Holanda, futura vice-campeã, é que segue na competição. 
 
O Brasil está fora. A festa murcha na edícula. Alguns vão embora. Logo “ela” vai também, deixando um tchau desajeitado, que quase passou despercebido, de tão tímido. 
 
Pegamos violão, pandeiro e bongô, e fazemos o pobre Kapitão de vítima. Gigio e Jejê exageram, e, confesso, eu também, nas gozações sobre o amigo. Em cada musiquinha, pelo menos uma estrofe inventada, tirando uma casquinha “do amor que se acabou”, fazendo rimas até com os nomes dele e dela, zoação pesada. 
 
“Estou a dois passuus, do paraísuuuu! Talvez ela não fique, não fique por lá!”, rangia o Gigio. “Ela espera ver aquela S10 voltando, de pára-choque duuuuro!”, emendava o Jejê. 
 
Kapitão, que tomava uma bera recostado na mesa do churrrasco, levantase de repente, pedindo que eu abra o portão para ele, que vai embora. 
 
“Vamo, vamo, Alemão! Deixa eu ir embora antes que eu faça uma bobagem!”, dizia.

Quando saímos, assim que fecho o portão, ele quer voltar, irado. 

 
“Esses desgraçados! Quem pensam que são? Me gozando?” — e arremetia contra mim, tentando tomar-me as chaves e o controle.

“Vem aqui repetir se for ‘home’!”

 
“Calma, cara!”, eu dizia, enquanto me esquivava. 
 
“Alemão, me deixe entrar, que eu vou moer a cara deles…”, repetia, meio bêbado, puto nas calças.

Por fim, se acalmou, enquanto eu me perguntava por que diabos ele não estava bravo comigo também, autor de algumas das piores piadas. Talvez porque eu seja velho amigo, enquanto Gigio e Jejê são quase estranhos, conhecidos há pouco. 

 
Asseguro-lhe que eles não fazem por mal, enquanto o coloco no carro, torcendo para que chegue bem em casa. 

Numa manhã comum, tempo depois, lanchando no portuga, contei a eles que o Kapitão ficara muito bravo com as provocações no churrasco da Copa. Eles juraram não ter percebido, lá dos fundos da casa, na edícula onde havia música e tevê ligada, a gritaria do meu velho amigo. Eu acho mais provável, mesmo, que tenham se borrado. Mas deixa pra lá. 
 
***
 
Quando os conheci, o Gê e o Jota (ambos no mesmo dia, na mesma hora), eu voltava de uma temporada de treze anos morando no litoral. Voltara a Ponta Grossa há poucas semanas, acabara de alugar uma casa, fizera um plantão aqui e outro ali, até surgir essa vaga. O currículo abrira-me as portas para uma entrevista, conduzida pela dupla em questão. 
 
O frio daquele dia de junho, inesperado, abaixo de zero, colocou-me um problema inusitado: não tinha roupa para a ocasião. Até uns dias atrás, estava um tempo agradável, seco e ensolarado. Do nada a temperatura virou. Não tinha um casaco chique, ou um suéter que combinasse. Tinha um terno de verão. 
 
Revirei o armário, atrás de algo que combinasse; acabei colocando um jeans bacana, uma camiseta de malha sob a camisa, e um blusão de lã. Por cima de tudo, a jaqueta mais quente que eu tinha, trazida de uma temporada na Rússia, uns anos antes. Azul e bordô, não esqueço; enorme, desajeitada, mas quente. Na cabeça meti um boné, e fui, pensando mais na minha sobrevivência no gelo do que na obrigação, nobre, da elegância. 
 
Meses mais tarde, quando já éramos amigos, descobri que desde aquele primeiro dia eu tinha um apelido, depois popularizado entre o pessoal do laboratório: o “motoboy”.
 
“Eu achei que alguém tinha encomendado uma pizza”, dizia o J., girando na cadeira do escritório. 

“Mas às oito da manhã, Jejê? Eu achei que era um calouro perdido no campus”, ria o Gigio. 
 
“Nada. Disso eu manjo: motoqueiro! Com aquela jaqueta, rola umas dez veiz no asfalto e nem se rala!”
 
***

 
Da turma de colegas de trabalho transformados em amigos, não posso esquecer de falar do Jecas, coitadinho, um sofredor nato. Desde sempre condenado a um apelido ingrato, Jesus Castilho, o Jecas, era o faz-tudo do Bloco B. “Piá bão”, repetia Jejê, que o apadrinhou na empresa — o que não o impedia de zoar o pobre de modo diuturno. Jecas, por ingenuidade ou sabedoria, caia na pegadinha de um, no trote do outro, no golpe do e-mail, nas lorotas espalhadas aos amigos. 
 
“Ô Jecas, você já viu aquele carro novo da Honda? O HIV?”
 
“Não, Gigio, num vi.”
 
“Olha aí! Pra você, que faz bico de pedreiro, pode ser o carro perfeito!”
 
E o pobre no Google, procurando um Honda HIV.
 
“Ô seu Giocondo, eu não acho esse carro, não… tem HRV, CRV, mas HIV, não!”
 
O Jecas se locomovia com um Nizzan velho de guerra, pau pra toda obra como ele. Era de décima quinta mão, pouco mais ou menos, e nem mesmo ele lembrava como o carro viera cair na sua mão. Um dia recebeu um e-mail em japonês, não filtrado pelo Gúgle, de um endereço que terminava em nizzan.jp. Na dúvida, imprimiu e levou pro Gigio, o panlíngue, o friozinho da turma. 
 
“Não, Jecas. Manda no meu e-mail que eu jogo no Translator!”
 
“Tá bão”, respondeu o outro, dando meia-volta. 
 
A mensagem, traduzida, era algo assim: 
 
“Proprietários de automóveis Nizzan Alta, produzidos entre 1990 e 1995, dos chassis alfa a zeta, devem comparecer a recall nas concessionárias autorizadas, devido a possível defeito de fabricação, no período entre x e y do corrente. Carros que apresentem o defeito farão jus a um bônus de 200.000 ienes pagos em moeda corrente do país, etc, etc.”
 
Entre surpreso e incrédulo, Jecas esperou, em vão, algum sinal de que se tratava de uma pegadinha. Levou uns dias para decidir se acreditava ou não — e desta vez não captou nenhum risinho, nenhum cochicho entre Gigio e Jejê. 
 
Só contaram a verdade quando o Jecas já estava no carro, pronto para viajar até Curitiba, à única concessionária da marca no estado, para buscar o dinheiro que não existia. 
 
Na cantina da firma, que frequentamos em turma, nos intervalos da manhã e do meio da tarde, Jejê é o último a pedir na fila que formamos no balcão. 
 
“E você, Jejenildo? O que vai querer?”
 
“O mesmo!”
 
“Mas o mesmo de quê?”
 
“O mesmo dele”, dizia, apontando pra mim, “ou dele”, apontando pro Gigio, morrendo de tanto rir. E comia mesmo, do mesmo, espelhando meu café da manhã, ou do Elisabeto, consultor que vinha toda semana de Curitiba. 
 
Uma vez “peguei” o Jejê, só uma, chegando antes dele ao balcão e solicitando à atendente, antes de qualquer um de nós pedir: “o mesmo que o Sr. Jejenildo for consumir”. 
 
Ele sofria com o Beto, Elisabeto, que alternava duas coxinhas (na fase maníaca) com um mero cafezinho (quando em regime). 
 
O mesmo, surpreendentemente, poderia variar.
 
***

De vez em quando, íamos lanchar na padaria do portuga, ali pertinho, para comer pastéis de Belém e descobrir que ele era, na verdade, um cearense que trabalhara em Lisboa, onde aprendera a receita. A frequência nos tornara habitués, e logo a dupla (sim, Leno e Lilian, digo, Gigio e Jejê) vira meio que dona do lugar. Lá levavam os amigos, mudavam o lugar das mesas, zoavam o dono, paqueravam a menina que ajudava a servir. 
 
Esta merece um capítulo à parte. Bonita, gostosona, já não tão nova, muito simpática. Gigio, observador arguto, logo soltou o comentário, bem baixinho, quase sussurrando, esticando o pescoço até o meio da mesa, puxando nossas cabeças para perto: 
 
“Bonita, ela, não? Só tinha que dar um jeito no quarto-zagueiro ali, botar um reserva, sei lá!”, dizia, apontando a própria boca, para que entendêssemos que se referia a uma falha na escalação odontológica, digamos assim, da pobrezinha. 
 
Havia dias em que eles (quem? quem?) levavam uma régua, uma reguazinha, acreditem, para medir os pastéis. 

“O Portuga, venha aqui! Não pode ser!”
 
“Mas ora, raios, o que houve, doutor?”
 
“O pastel, claro! Os de hoje estão 0,2 centímetros menores em diâmetro que os de ontem! É um abuso!”
 
E o falso português se remexia, nervoso, sem entender a piada. 
 
“É o tempo, doutor, tá frio, aí a massa não cresce tanto…”
 
***

Não posso deixar de contar que já fui vítima de pegadinhas piores da parte deles, algumas literalmente impublicáveis. Ainda assim, a visita de Jejê à minha casa, tarde da noite em uma terça- feira, no meio das férias escolares, todo sem jeito, merece menção dentre os momentos impagáveis dessa amizade. 
 
Depois de muito enrolar, falar sobre tudo e nada, ele desembuchou. 
 
“É que a gente fez um pedido em seu nome”, começou ele. 
 
“Sim… como assim?”
 
“É… eu vou explicar. A gente tem pedido…”
 
“A gente quem?”
 
“Eu e o Gigio.”
 
Lá vem bomba, pensei. 
 
“Uma bota pro Jecas, pro trabalho dele no laboratório…”
 
“Tá, mas o que é que eu tenho a ver com isso?”
 
“É que a gente passou meses pedindo pro departamento e nada. Eu, depois o Gigio… aí a gente resolveu experimentar se um engenheiro pedindo, a resposta seria diferente…”
 
A essas alturas eu já estava rindo da história, claro. 
 
“E daí, Jejê?”
 
“Aí nós criamos uma conta de e-mail falso em seu nome… A gente pensou… um cara médico, com um sobrenome chique desses, não teria um pedido negado…”
 
“Mas que filhos da…”, exclamei, fingindo indignação. “Fala logo!”
 
“Nada não, é que levaram a sério o e-mail, e agora a bota chegou, uma galocha branca de borracha, linda, muito útil, e o Jecas pediu pra agradecer, vai ser de muita ajuda…”
 
No meio da gargalhada, ouvi o Jejê completar:
 
“Então, eu vim aqui pedir pra você, por favor, não negar que fez o pedido, caso perguntem, senão eu e o Gigio tamo frito…”
 
***
 
Poderia contar mais uma dúzia de histórias sobre eles, mais ou menos divertidas, mas acho que já está de bom tamanho. É a minha vingança, urdida em segredo, este pequeno roman a clef (as histórias deles já são famosas, na firma e fora dela, logo, acho que não estou fazendo um grande mal). 
 
Antigos colegas de trabalho perguntam: “E o Gigio? E o Jejê? Aprontando muito?” 
 
Ao que eu sempre respondo: 
 
“Quer saber a última do Gigio e do Jejê? Não vai conseguir. Você pode até saber da penúltima, mas nunca da última, porque a última, mesmo, eles devem estar aprontando agora, neste exato momento…”

RENATO VAN WILPE BACH é médico, escritor e professor residente em Ponta Grossa

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