17/03/2022 às 15h20min - Atualizada em 17/03/2022 às 15h20min

ARTIGO: BBB22 e a importância do cuidado com a saúde mental, por Jussara Prado

Sabemos que toda a arquitetura da casa é pensada psicologicamente para estressar os participantes. Mas também devemos lembrar que o BBB é um experimento social, pois ele faz um recorte do que nós vivemos e convivemos todos os dias nas nossas relações

Por Jussara Prado
Foto: Reprodução/Globo
O que a briga entre as participantes do BBB22 Natália e Linna têm a nos dizer sobre a importância do cuidado com a saúde mental?

Nesta noite de quarta-feira (16) durante a festa do líder, houve um desentendimento entre o grupo de colegas Linna, Natália e Jessi, onde Natália brigou por ciúmes de Linna com Jessi, dizendo se sentir excluída desta amizade. Mas esse desentendimento aconteceu, depois de muito álcool ter sido ingerido. E sabemos que festa + bebida alcoólica, não é ocasião para se resolver conflitos, muito menos lavar a roupa suja.

Muita coisa foi dita, muita gente tentou manejar a situação, mas eu gostaria de pontuar alguns trechos de todo esse caos que aconteceu na casa mais vigiada do Brasil. Num momento da conversa entre as três, Natália disse que parecia que as duas não conversavam com ela, que a conversa era só entre as duas “e a Natália? Onde a Natália foi parar?”.

Outras falas de Natália interessantes de se analisar relatam o momento em que ela chegou a gritar dizendo que queria ser ouvida por elas “agora eu vou falar, agora é minha hora de falar”, e quando ela gritava, descontava sua energia em objetos da casa “eu não posso fazer nada”.

Se teve uma coisa que Natália fez foi descontar sua energia em diversos objetos da casa. Jogou coisas para o ar, no chão, enfim... um descontrole emocional que só, colocando não só sua integridade física em risco, como tamém a dos demais brothers. Cenas muito comuns com crianças, as quais não sabem manejar suas emoções ainda.

Isso só me trouxe a reflexão de como pode ter sido o desenvolvimento afetivo emocional de Nathy quando mais nova (lembrando que ela tem 22 anos). Será que ela era ouvida pela família? Será que suas emoções eram acolhidas e validadas? Será que excluíam ela dos círculos que convivia? Como foi sua infância e adolescência, pra ela aprender que lidar com as emoções, deve-se beber antes e depois descontar nas pessoas e nos objetos?

Percebi também, ela exigindo um afeto das meninas que talvez elas não possam lhe dar. Temos de lembrar que aquilo é um jogo por dinheiro e mesmo que se criem laços e amizades, é difícil exigir de alguém algo que só você pode prover para si mesmo. Que foi o que Natália, aparentemente, estava fazendo. E no medo de ser excluída e afastada das amigas, reagiu impulsivamente, levando Linna, uma das amigas, a cogitar se afastar. 

Outra coisa que me chamou atenção não foi só o comportamento de Natália. Mas como Linna reagiu logo em seguida, após a briga, se chamando de monstro. O quanto as pessoas trans e travestis são taxadas de monstras, anormais e tantas outras coisas ruins pela sociedade, mídia, religião, escola e a própria família... e o quanto tudo isso fica internalizado nelas, que elas são ruins, verdadeiros monstros que só estragam as relações e a vida das pessoas, como se não merecessem coisas boas. 

Isso pode ser classificado como transfobia internalizada, que é quando a pessoa internaliza todas essas mensagens negativas ao seu respeito, acreditando que tudo isso é verídico, e que sempre os outros terão razão contra a sua palavra e suas emoções. 

Tanto, que ela se responsabilizou por tudo o que aconteceu ali naquele momento, decidindo se afastar das duas então, para resolver a situação. Achou melhor renunciar a uma amizade (com Jessi), para que isso não acontecesse mais (o comportamento de Natália).

Sabemos que toda a arquitetura da casa é pensada psicologicamente para estressar os participantes, com cores fortes e intensas, desenhos malucos e móveis que não dão nenhuma sensação de paz. Mas devemos lembrar que o BBB também é um experimento social, pois ele faz um recorte do que nós vivemos e convivemos todos os dias nas nossas relações. Quem é que já não foi Natália ou Linna um dia?

Peço que não julguem nenhuma delas como louca ou coisa do tipo, até porque ninguém está lá pra ser diagnosticado. Mas entendam como que a falta do cuidado com a saúde mental pode afetar nas relações, não só com os demais, mas também na sua consigo mesmo.

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