21/03/2021 às 13h47min - Atualizada em 21/03/2021 às 13h47min

ARTIGO: Relato de um negro drama, por Tony Olliver

O preconceito traz sofrimento tanto aos que são vítimas quanto aos que o praticam. Pela ótica da vítima, a dor é mais intensa, mas ele também intoxica a alma do preconceituoso

Por Tony Olliver
Foto: Paola Antunes
Quando me falam: “Você é um preto de alma branca”, eu digo: “Não, eu visto preto por dentro e por fora”. Hoje, após ouvir a música “Negro Drama”, dos Racionais MC’s, refleti um pouco sobre essas palavras e notei que, apesar de serem óbvias, infelizmente não são compreendidas pela maioria das pessoas. Por isso, estou aqui para tentar clarear a escuridão das mentes que se questionam sobre o preconceito.
 
Vejo que a realidade atual do negro passa por um crivo fundamentado em uma cultura que evoluiu nomeando ruas para homenagear escravizadores, que talvez tenham sido torturadores e até mesmo estupradores, e que costuma demonizar os negros por sua “inferioridade cultural” e pelo culto às religiões de origem africana.
 
Acredito que certos elementos da cultura africana, principalmente a “macumba”  (instrumento musical de percussão, similar ao reco-reco) foram os maiores escudos dos negros contra os algozes da época. Não digo isso por conta do contexto religioso, mas, sim, norteado pela lógica e pela razão, que acredito ser imparcial. Considerando que os escravos, assim como as mulheres e os pobres, não tinham direito à segurança pública, compreendo que eles tinham de usar o preconceito e o medo alheio a seu favor. Foi sábio da parte deles se valerem das superstições, pois o som de um instrumento considerado “do mal” poderia servir para muitas coisas, como evitar abusos ainda maiores que a própria escravidão.
 
A nossa cultura nos levou a acreditar que o preto era ruim, talvez pela associação com a escuridão e os mistérios das sombras ou por pura ignorância. Sabemos que nem o bem nem o mal têm “cores”, mas, por algum motivo, os seres humanos ainda precisam apontar uma. Assim, cada qual pinta o bem e o mal da cor que lhe convém. Seja branco, preto ou colorido.
 
Mas, afinal, como podemos saber se somos racistas? Primeiramente, ser racista não tem nada a ver com a cor da pele. E, por incrível que pareça, no Brasil há muitos negros racistas. Alguns nem sabem que são, especialmente aqueles que foram criados como “brancos” e que não conhecem a importância da consciência negra. São vítimas e sofrem a segregação pensando ser algo normal. São os “Não Tão Pretos Assim” ou os “Pretos de Alma Branca”, aqueles que se destacam por habilidades e, mesmo assim, são a última opção de escolha para os cargos importantes e a primeira para os chamados “subempregos” (entre aspas porque considero uma palavra preconceituosa).
 
O único jeito de reconhecer o racismo é usar a imaginação e se colocar no lugar do outro. Para facilitar o entendimento, eu vou exemplificar: imagine-se como uma mãe branca e loira que tem um filho negro e que, ao caminhar pelas ruas, é metralhada com olhares de indignação e questionada constantemente: “É seu filho?”. Mais um exemplo: agora você é o filho, está com 16 anos e, como a maioria dos jovens, gosta de usar boné, bermuda e chinelo. Neste dia, você está atrasado e, para chegar a tempo, acha melhor correr com a mochila na mão, e, quando se dá conta, está sendo atacado com olhares de medo e apontado como suspeito por diversas pessoas.
 
Imagino que com esses exemplos a percepção do racismo foi facilmente compreendida pela ótica do amor materno ou do jovem negro ainda ingênuo. Acredito que, se você se colocou no lugar dos exemplos, o efeito das emoções provocadas lhe apontou a luz da verdade e agora uma nova perspectiva pode nortear a sua razão.
 
Apesar de ter falado apenas no racismo, acredito que qualquer preconceito é irracional, pois traz sofrimento tanto aos que são vítimas quanto aos que o praticam. Obviamente, pela ótica da vítima a dor é mais intensa. Apesar disso, o preconceito é um veneno que também intoxica a alma de quem o pratica, levando a um estado de ódio irracional que pode trazer diversas consequências desastrosas. Quando um amor, por exemplo, é colocado à prova pelo preconceito, os preconceituosos se veem face a face com a sua verdade e a razão entra em guerra com o afeto, gerando angústia, isolamento, separação. O preconceito é avassalador ao coração humano. É um mal tanto para quem é ferido quanto para quem fere.
 
A natureza humana consiste em se relacionar o tempo todo. Isso inclui amar, compartilhar, odiar e se decepcionar, coisas que não podemos escolher e que a vida nos impõe para que possamos aprender pelo bem da nossa própria existência. Se somos todos irmãos aos olhos de Deus, da próxima vez que notar que está sendo preconceituoso, mude a sua atitude, e, em vez de agredir, julgar ou se deixar levar pelo medo e atravessar a rua, olhe nos olhos, sorria, cumprimente, ajude e abrace. 
 
TONY OLLIVER é negro, designer e empresário

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