11/04/2022 às 10h56min - Atualizada em 11/04/2022 às 10h56min

ARTIGO: Pais, filhos e a escolha profissional, por Jussara Prado

É muita perversidade jogar em cima de jovens de 15, 16, 17 e até 18 anos a responsabilidade de escolher algo para sua própria vida, que seja 100% assertiva e que dure para todo o sempre

Por Jussara Prado
Foto: Reprodução
Como psicóloga clínica eu também realizo orientação profissional, auxiliando diversos jovens na sua escolha, seja de graduação, curso técnico ou profissão propriamente dita. E todo início de ano letivo me deparo sempre com as mesmas questões, não só internas dos meus orientandos, mas principalmente das pessoas ao seu redor.

Preciso ser honesta, essas pessoas ao redor do orientando ao qual me refiro são os pais. Sejam pai e mãe, duas mães, dois pais, mãe e vó, pai e tia, independente da configuração familiar, mas as pessoas que estão criando este jovem que agora se encontra neste momento de extrema ansiedade e receio, que é a escolha profissional.

Falando assim, até parece que a escolha profissional é uma escolha única na vida e que, depois de feita não pode ser desfeita, rs. Mas já vou dar o spoiler da vida para quem não sabe, para tirar o peso dos ombros de quem está sofrendo por antecipação ou até de quem nem imaginava isso: mas dá sim pra re-escolher. O que não dá é desescolher.

É muita perversidade jogar em cima de jovens de 15, 16, 17 e até 18 anos a responsabilidade de escolher algo para sua própria vida, que seja 100% assertiva e que dure para todo o sempre. Até porque, a única certeza de que temos na vida é de que um dia ela irá acabar. Apenas.

No processo de orientação profissional, o que eu gosto de deixar bem claro tanto para orientando, quanto para os pais, é isso. Ele irá escolher diante do cenário que se encontra neste momento, das condições que tem agora e do que tem interesse. Mas isso pode mudar daqui 5, 10, 20 anos ou mais. E ele terá todo direito e liberdade para refazer sua escolha. Como eu disse, não poderá desfazer sua escolha. Até porque, ainda não conseguimos voltar no tempo para refazermos nossas escolhas como no filme “Click”, com Adam Sandler.

Mesmo entendendo tudo isso, muitos pais acabam se frustrando quando veem que o(a) filho(a) tem seus próprios interesses, gostos, desgostos e preferências, e acaba realizando uma escolha que o leva para bem longe das expectativas dos pais.

E essa frustração não fica só com eles e com seus próprios terapeutas, rs. Essa frustração gera conflitos dentro de casa, e vai parar nos meus atendimentos, vem no meu WhatsApp, ligação telefônica, etc. 

“Mas Jussara, fazendo X curso, ele não vai ter tanto dinheiro assim”, “tal curso não irá trazer o status que ele merece”, “essa profissão não é nada prazerosa de se fazer na vida”, e tantos outros comentários que já vi e ouvi. Mas será que esses pais estão conversando com seus filhos a respeito da prioridade nas suas escolhas profissionais?

Alguns orientandos priorizam uma qualidade de vida, outros o status social, enquanto outros realmente priorizam o financeiro. E tudo isso é levado em consideração no nosso processo, em cada sessão, em cada atividade realizada e em cada reflexão que fazemos.

Mas eu entendo estes pais, até porque eu sou mãe e entendo que nós só queremos o melhor para os nossos filhos. E sei também que as expectativas foram criadas quando este jovem ainda era um bolinho de células dentro do útero. Mas essas expectativas só levaram em consideração as angústias, as experiências e o desejo desses pais.

Agora, aquele bolinho de células evoluiu para um ser humano maravilhoso e único, com suas próprias características e com o seu próprio poder de decisão por si. Claro que ainda tem muito chão para desenvolver a tão famosa maturidade da vida adulta, mas com o apoio e acolhimento dos pais, associado a um processo de orientação profissional ético, este jovem pode vir a fazer uma escolha que esteja coerente às suas condições, habilidades, possibilidades, preferências e interesses.

O que muitos pais precisam entender é que, a partir do momento que se corta o cordão umbilical, deixa-se de controlar este ser. Na verdade, nem com o cordão umbilical se controlava, imagina agora sem. Não temos controle de muitas coisas na vida, a não ser nossas escolhas e a forma como iremos reagir às nossas emoções. E nossos filhos não é uma delas, e a escolha deles, está apenas no controle deles.

JUSSARA DORETTO BENETTI DO PRADO é psicóloga com foco em autoestima e relacionamentos. Instagram @psicologa.jussaraprado

 
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