22/03/2021 às 11h21min - Atualizada em 22/03/2021 às 11h21min

ARTIGO: "Comunicação e liderança: as contribuições da neurociência", por Jeferson de Souza

É como Thomas Edison dizia: “A principal função do corpo é levar o cérebro para passear.” E a do líder é compreender onde o cérebro do outro quer chegar

Por Jeferson de Souza
Foto: Divulgação
Houve um tempo em que ser “chefe” era sinônimo de impor medo aos subordinados. Hoje ainda há alguns desses exemplares inescrupulosos em atividade. Sabemos que esses líderes são tóxicos. Eles literalmente alteram a química da equipe, aumentando o hormônio do estresse e muitas vezes levando ao aparecimento de doenças. Usar o medo para atingir os seus objetivos é acionar nos funcionários o “modo de sobrevivência” do cérebro. Com medo, a pessoa faz coisas com as quais nem sempre concorda. 

Como usar positivamente os mecanismos biológicos, comuns a todos os seres humanos, para ser um líder de verdade, daqueles que inspiram, que são defendidos por seus subordinados e que conduzem um time a um grande resultado? 

A neurociência nos dá informações claras dos caminhos seguidos pelos bons líderes. Nos últimos anos, o estudo do sistema nervoso avançou muito. A possibilidade de observar imagens em tempo real de um cérebro vivo foi um salto gigantesco nessa área, que sempre despertou o interesse da humanidade. A motivação da medicina com os aparelhos de ressonância magnética funcional foi a cura de doenças degenerativas, como Mal de Parkinson e Alzheimer. Agora cientistas sociais se aproximaram da medicina para entender o comportamento humano. Daí vieram estudos que mudaram o mundo. 

A economia comportamental, ganhadora de dois prêmios Nobel, alavancou uma série de aplicações da neurociência em estudos sociais. Surgiram, além da neuroeconomia, a neuroarquiteura, o neuromarketing, a neuroestratégia, a neuroliderança e a neurocomunicação, esta que me arrebatou nos últimos tempos, após mais de 20 anos de experiência como líder de equipes de alta performance. A comunicação é um dos principais atributos do bom líder. Mais de 70% do trabalho da liderança é comunicar. 

Em qualquer empresa que você pesquise há de haver alguém que vá apontar “falhas na comunicação” como responsável por resultados indesejados. Mas onde mesmo residem as falhas de comunicação? Nos comunicadores, ou seja, nos seres humanos que estão interagindo nas organizações. A partir dessa perspectiva, lançamos mão do conhecimento sobre o funcionamento das pessoas para entender a origem dos problemas e propor mudanças de atitudes e abordagens que conduzam a equipe a resultados melhores. 

Basicamente, a neuroliderança propõe ao gestor o autoconhecimento e o conhecimento sobre a biologia humana como ferramenta. A partir disso, ele tem a capacidade de compreender o que acontece consigo e com cada um de seus liderados, o que os motiva ou o que os faz reagirem em determinadas situações. Um bom líder é capaz de “ler” a sua equipe. E ele precisa, por exemplo, conhecer o ciclo circadiano de seus liderados. É o ritmo que regula o funcionamento do corpo humano ao longo do dia. A partir desse conhecimento, é possível saber, por exemplo, que não dá para marcar reunião para todos às 7h30! Alguns são matutinos, ou seja, são bem produtivos pela manhã. Outros simplesmente não. Os vespertinos sofrerão muito de participar da reunião logo cedo e não trarão, de fato, uma contribuição, pois o auge do funcionamento deles é à tarde, justamente quando os matutinos já estão sem energia. Para estes, uma reunião ao fim do expediente é uma tortura.

Outra compreensão importante é que precisamos estar bem descansados e alimentados para sermos produtivos. Uma pessoa que teve uma queda brusca no seu rendimento no trabalho pode estar enfrentando uma crise de insônia. E o líder precisa conversar e entender a origem do problema, em vez de julgar e sentenciar que o outro deixou de ser um bom funcionário. Fome e sono afetam não só o nosso humor, mas o nosso processo de tomada de decisão. Decidir cansa, e decidir cansado aumenta exponencialmente a nossa possibilidade de erro. 

Uma pesquisa com juízes israelenses apontou que os que decidiam com fome deixavam os seus réus presos por mais tempo e os que se alimentavam antes das decisões foram mais favoráveis aos réus. Há ainda a possibilidade de mudança de linguagem. Por isso a neurolinguística é também importante para atingir determinados objetivos do líder. 

Sabe aquela pessoa que já falou para você “eu tenho que aprender inglês”? Esse “eu tenho” traz uma carga negativa, que é percebida pelo cérebro, órgão que precisa de muita energia para funcionar. O que ele faz ao entender que aprender inglês será um grande esforço? Procrastina, deixa para depois, assim como o regime que você “tem que” fazer e a academia que você “tem que ir”. 

A neuroliderança é uma área enorme a ser explorada e a aplicação dela traz resultados surpreendentes a partir de pequenas mudanças. Podem ser as palavras que você usa, o horário das reuniões, o lanchinho à mão para aplacar a fome antes daquela conversa mais difícil. Esses são exemplos aparentemente simples, que influenciam o órgão mais complexo do nosso corpo. O cérebro sempre buscará prazer, recompensa, e isso movimenta a nossa vida. Literalmente. É como Thomas Edison dizia: “A principal função do corpo é levar o cérebro para passear.” E a do líder é compreender onde o cérebro do outro quer chegar.

JEFERSON DE SOUZA é jornalista, professor de Neurocomunicação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e coordenador adjunto do MBA Neuroestratégia e o Pensamento Transversal e do Seminário de Neurociências Aplicadas na ESIC Internacional

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