23/03/2021 às 11h07min - Atualizada em 23/03/2021 às 11h07min

ARTIGO: “Tratamento precoce para COVID-19: o que você precisa saber”, por Bruno Minozzo

Tendo tomado os medicamentos, as pessoas criam falsas impressões de que estão protegidas e, por isso, não procuram atendimento. Quando o fazem, a situação já pode ter saído de controle

Por Bruno Minozzo
Após um ano, a temática acerca de tratamentos medicamentosos contra a doença causada pelo Coronavírus ganhou um novo episódio. Essa discussão, iniciada em março de 2020 com o uso de hidroxicloroquina e azitromicina, está novamente em pauta. No entanto, outros medicamentos, como ivermectina e corticoides, foram adicionados ao pacote que hoje tem sido chamado de “kit covid” e vem sendo empregado como forma de profilaxia e de tratamento precoce contra a infecção.

Nesse momento, faço um convite a você, leitor. Vamos entender como se desenvolvem tratamentos?

A ciência dispõe de formas de provar se uma terapia medicamentosa realmente funciona ou não. É como num jogo em que as fases vão ficando cada vez mais difíceis, passando do nível de evidência mais baixo para o mais elevado, no qual apenas os fortes candidatos conseguem avançar porque, de fato, são efetivos.

Nesse desafio, os estágios iniciais da evidência são representados pelas experiências individuais dos profissionais ao se prescrever um desses medicamentos, isto é, da observação daquilo que acontece na prática de trabalho de cada um. Por outro lado, nas fases mais avançadas e difíceis do “game”, os medicamentos passam por testes chamados estudos clínicos randomizados que testam, no limite, se os efeitos dos medicamentos são verdadeiros contra a doença.

Nesse contexto, o uso de certos medicamentos como tratamento profilático (feito para impedir que alguém adoeça) e precoce (iniciado logo nos primeiros sinais e sintomas da infecção) contra a COVID-19 são tentativas terapêuticas que não conseguiram passar pelo crivo das fases mais difíceis da provação científica e, portanto, não podem estampar nas bulas essa indicação.

Adeptos dessas modalidades de tratamento – se assim pudermos chamar – se apoiam em expressões como “parece haver uma redução dos casos”, agindo mais com entusiasmo do que com racionalidade. Além disso, pacientes que aceitam receber prescrições desses medicamentos devem assinar um termo de consentimento do seu uso, ratificando que estão cientes que foram orientados sobre os possíveis benefícios e riscos. Mas qual seria a real intenção? Corresponsabilidade ou omissão sobre as potenciais consequências? 

O tema é divergente e ocupa lugar em muitas discussões. Contudo, em tempos de pandemia e variantes do vírus, é imutável o fato de que somente a ciência é, e sempre será, soberana em nos dar as respostas de que precisamos.

Assim, à luz do melhor conhecimento científico disponível até o momento, elenco abaixo pontos fundamentais de serem amplamente conhecidos, apoiado nas fundamentações feitas pelo Dr. Clóvis Arns da Cunha, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, ao Plenário do Senado Federal no último dia 15 de março:

• Para pessoas internadas com a COVID-19 em estado grave, a oferta de oxigênio, associada ao uso de dexametasona e anticoagulante em doses profiláticas, é o que tem salvado vidas;

• O uso de corticoides na fase inicial da infecção provou ser mais prejudicial do que benéfico;

• Hidroxicloroquina, Azitromicina ou Ivermectina não funcionam como tratamento medicamentoso precoce. Dessa forma, ele não existe! Além disso, até o momento, não apresentam nenhum efeito positivo em prevenir a infecção;

• O fato de serem medicamentos com razoável margem de segurança não os isentam de riscos. Não há como definir, com elevado grau de confiança, qual paciente desenvolverá efeitos colaterais moderados ou graves em apenas uma consulta;

•  O uso incorreto de medicamentos pode trazer consequências perigosas não só individualmente, mas coletivamente também. A Azitromicina é um antibiótico que atinge muitas bactérias, e o seu uso desenfreado poderá causar o aparecimento de microrganismos resistentes em nossa comunidade. Sim, a exemplo dos vírus, as bactérias também sofrem mutações. E, como constatado, não se criam medicamentos na mesma velocidade que surgem novas cepas;

• A divulgação de conteúdo de cunho irracional e sem fundamento técnico leva ao comportamento em manada de pessoas que se debandam às farmácias em busca dos tais comprimidos milagrosos. Contudo, há àqueles que defendem que a medicação deve ser feita apenas sob orientação médica. Então, vêm as dúvidas: qual a posologia deve ser usada? Por quanto tempo? Quem as definiu? Quais as consequências futuras? Todas essas perguntas contribuem para a falta de uniformidade da prática clínica vista hoje;

• Tendo tomado os medicamentos, as pessoas criam falsas impressões de que estão protegidas e, por isso, não procuram atendimento. Quando o fazem, a situação já pode ter saído de controle. Há inúmeros exemplos de internamentos e mortes entre usuários dos intitulados tratamentos profilático e precoce;

• Nenhuma sociedade médica, agência regulatória ou instituição de saúde, nacional ou internacional, recomenda ou apoia tais tratamentos. Nenhum país tecnologicamente desenvolvido e avançado nos cuidados de pessoas acometidas pela COVID-19 aprovou protocolos para o uso dos medicamentos em questão para qualquer fase da doença. Não há tempo para argumentos infundados de que, no Brasil, somos “copiadores”. Devemos, sim, replicar o que deu certo e funcionou. Isso não é desmerecer o potencial da ciência ou dos profissionais brasileiros em desenvolver inovação, é ser inteligente para saber aproveitar o conhecimento produzido e avançar num esforço coletivo para o fim da pandemia.

Diante de todo o exposto, é nítido que apenas práticas chanceladas pela ciência poderão nos tirar do caos desta pandemia. Devemos unir esforços e energias para lutar por maior celeridade do processo de imunização de todos, bem como intensificar as medidas de higiene social e prevenção de infecção. 

Foco no que interessa! Só assim será possível achatar a curva, só assim será possível diminuir o número de mortos e só assim será possível manter do nosso lado todos aqueles que amamos.

BRUNO RODRIGO MINOZZO é doutor em Ciências Farmacêuticas

Disclaimer: O autor declara não haver nenhum tipo de conflito de interesse na elaboração do texto.

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