05/05/2022 às 14h14min - Atualizada em 05/05/2022 às 14h14min

ARTIGO: Um novo olhar sobre a maternidade, por Jussara Prado

Dizem que é uma bênção, que não existe coisa melhor ou até que, é só através da maternidade que a mulher, de fato, torna-se mulher. Mas, ninguém avisa o quanto a maternidade é solitária, dolorosa e excludente

Por Jussara Prado
Foto: Reprodução
A Amazon dos Estados Unidos irá reembolsar colaboradores que precisarem viajar para realizar tratamentos médicos, incluindo abortos para funcionárias que precisarem e desejarem este procedimento. Mas ela não foi a primeira empresa a fazer isso. Várias outras instituições americanas já garantem acesso ao aborto para suas funcionárias em seus planos.

Diante dessa notícia, as reações são das mais diversas, desde o ódio inflamado pela religiosidade e outras crenças contra o aborto, até a gratidão e o alívio por saber que mulheres estão podendo tomar decisões sobre seus próprios corpos. Mas, a reação desta Psicóloga que vos escreve vai além disso.

A mulher, nascida ou não com útero, sempre será julgada pela sua maternidade – seja ela existente ou não – e de certa forma, prejudicada por ela também. Mas, como assim?

Eu estudo e trabalho com os seres humanos, mas confesso que me cansa a beleza ver que em pleno 2022 ainda existem pessoas que acham que a mulher tem obrigação de ser mãe. Mas sim, ainda existe essa ideia, crença e até doutrina em diversas famílias espalhadas por esse nosso Brasilzão.

Dizem que é uma bênção, que não existe coisa melhor ou até que, é só através da maternidade que a mulher de fato, torna-se mulher. Mas, ninguém avisa o quanto a maternidade é solitária, dolorosa e excludente.

Eu fui mãe aos 16, e vivi essa solidão, dor e exclusão em diversos âmbitos da minha vida. Até eu me tornar Psicóloga clínica, acreditava que era por ter sido mãe nova. Hoje, eu vejo mulheres com 20, 25, 30, 35 anos, casadas ou não, trabalhando ou não, com rede de apoio ou não, sendo mães e vivendo a mesma coisa que eu vivi.

Ao engravidar, o corpo da mulher torna-se mais propriedade pública do que antes: as pessoas querem tocar na barriga, sem ao menos pedir consentimento; querem dar opiniões e conselhos que não foram solicitados; ficam falando de tragédias que ocorreram em gestações alheias; invalidam os saberes dessa mãe, sua responsabilidade, autonomia e maturidade. E as que não querem ter filho, já são julgadas, questionadas e criticadas.

Quando o filho nasce, visita-se somente a criança e não a mãe. E essa mãe é esquecida, ignorada, assim como o que ela fala que não é para fazer dentro da casa dela e com o recém-nascido dela. Afinal, quem é ela pra dizer o que eu posso ou não fazer com o filho dela né? É um desrespeito atrás do outro.


A mãe precisa de descanso ou, ao menos, um tempinho para tomar um banho decente. “Ah, agora aguente, quem mandou abrir as pernas?”. A mãe vai sair se divertir um pouco, porque ela ainda é um ser humano (na verdade, nunca deixou e jamais deixará de ser), “ué, onde tá o fulaninho? Quem tá cuidando dele?”.

A vontade é de responder coisas de baixo calão, mas, nós damos aquele sorriso amarelo e justificamos pra essa pessoa que não tem esse direito (e nós, muito menos essa obrigação), o que estamos fazendo, onde está nosso filho e tudo mais o que ela quer saber. As que não saem, também são criticadas.

Isso que eu nem citei sobre os pais. Só esse ano, já temos mais de 29 mil crianças sem o nome do pai no registro de nascimento. Imagina só, um pai que cria seu filho junto da companheira ou que colabora na organização e limpeza da casa, ao invés de só “ajudar”. A responsabilidade é de ambos, não só da mulher, até porque, “na hora de fazer estava bom né?”.

Algumas Instituições de Ensino, colaboram com essa mãe para que ela possa terminar seus estudos, outras não. Vai depender da sorte que essa mãe tem, das pessoas que estão lá e de muitos outros aspectos, como a cor da sua pele, a quantidade de dígitos na conta bancária, enfim... Brasil achando que ainda é colonial.

E as organizações? Nessa hora, o aborto dentro do plano de saúde se faz muito lindo né Amazon? Para quem já atuou em Recursos Humanos ou Recrutamento e Seleção sabe, muitos empresários pedem que não se contrate mulher, porque mulher engravida.

A mulher engravida, sai de licença e volta depois de alguns meses. E, ainda, tem uma lei aí que protege ela e o emprego dela, onde já se viu né? Então não, nada de contratar mulheres. Só homens.

Mas daí os homens não colaboram na criação dos filhos e com a casa, acham que é só ir pro trabalho e voltar pra casa pra sentar-se no sofá. Esperam encontrar uma esposa estilo anos 50, 60, com vestido de bolinhas, cabelo arrumado, maquiada e uma taça de vinho, esperando-o de braços abertos enquanto o jantar termina de assar no forno.

Isso os que ficam né? Quantos casos eu já não ouvi de “ele queria tanto um filho, que eu dei um filho pra ele. Mas assim que nasceu, ele sumiu!”. Aí fica a mulher sem emprego, porque não se contrata mulher, já que elas engravidam; mãe solo, já que os homens somem, ou estão presente só de corpo; e, por fim, se pensa em abortar ou colocar o filho pra adoção... Nossa! 

Se fazem uso de políticas públicas e auxílios do governo, ouvem coisas como: “aí ó, engravidou porque quis, teve um monte de filho e agora vive nas costas do governo, dos impostos que eu pago!”

E quando temos emprego, o nosso salário já é menor que o dos homens, exercendo a mesma função e, muitas vezes, com maior qualidade no trabalho. Porque tem uns "bonitões" que ganham crédito dizendo o mesmo que nós, mas como são homens, suas ideias são mais validadas. Então eu repito: a maternidade é solitária, dolorosa e excludente.

E não mães, seus filhos não devem nada a você. Eles não são um investimento ao qual você pode exigir o seu ROI (Retorno de Investimento). E nada disso é padecer no paraíso, até porque pra isso ser um paraíso, falta muita coisa ainda.

JUSSARA DORETTO BENETTI DO PRADO é psicóloga com foco em autoestima e relacionamentos. Instagram @psicologa.jussaraprado


 
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