24/03/2021 às 10h06min - Atualizada em 24/03/2021 às 10h06min

“Novas variantes vão surgir enquanto o vírus circular de forma desenfreada”, diz professora da UEPG

Docente dos cursos de Medicina e Farmácia da UEPG, Elisangela Gueiber Montes fala sobre as novas variantes do Coronavírus, a eficácia das vacinas contra elas e o impacto dessas mutações

Da redação, com assessorias
Foto: Divulgação
Farmacêutica-bioquímica formada há 25 anos, Elisangela Gueiber Montes nunca havia concedido tantas entrevistas. Desde o início da pandemia, a professora dos cursos de Medicina e Farmácia da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) tem explicado a ação do Coronavírus e seus efeitos. Na entrevista a seguir, a docente, doutora em Ciências Farmacêuticas, mestre em Ciências Biológicas, especialista em Microbiologia e Imunologia, e graduada em Farmácia-bioquímica, fala sobre as novas variantes do vírus.

O que são e por que surgem as mutações e as novas variantes do Coronavírus?

As mutações são alterações no código genético dos vírus que aparecem durante o seu processo de multiplicação, ou seja, quando fazem cópias de si mesmos. Essas alterações podem ser consideradas “erros”, sendo que a maioria delas é irrelevante e até mesmo prejudicial à sobrevivência do vírus. No entanto, outras podem trazer alguns benefícios a esses microrganismos, como, por exemplo, melhor capacidade de sobrevivência e adaptação ao ambiente, podendo ter maior potencial de transmissão ou ainda utilizar formas de escapar da nossa resposta imune. Para que as mutações sejam detectadas, é necessário realizar o sequenciamento genético do vírus.

Em relação às variantes, elas surgem quando mutações específicas começam a aparecer de forma frequente e acabam se “fixando” ou estabelecendo-se em determinado local. De modo geral, as variantes que têm melhor capacidade de adaptação e sobrevivência acabam, ao longo do tempo, se sobrepondo às menos resistentes e tornando-se as mais frequentes. Novas variantes surgiram e ainda surgirão enquanto o vírus continuar circulando em nosso meio de forma desenfreada.

 
"Variantes que têm melhor capacidade de adaptação e sobrevivência acabam se sobrepondo às menos resistentes e tornando-se as mais frequentes"

Essas variantes são mais transmissíveis e infecciosas?

Existem, atualmente, muitas variantes desse vírus já catalogadas, sendo que a maioria delas não tem características ou diferenças que mostrem maior potencial de transmissão ou de causar doença mais grave que as demais. No entanto, recentemente algumas trouxeram preocupação, principalmente por apresentarem alterações importantes na proteína Spike(S) do vírus. Entre elas, está a isolada inicialmente no Reino Unido (B.1.1.7), que mostrou ter maior capacidade de transmissão entre os indivíduos. Outras duas variantes, que também têm sido bastante estudadas, foram detectadas na África do Sul (B.1.351) e em Manaus (P1), que têm em comum uma mutação conhecida como E484K na proteína S, a qual confere a elas, além de maior transmissibilidade, também a capacidade de “enganar” a resposta imune do indivíduo, a que chamamos de escape. 

Ainda sobre a variante brasileira, novos resultados detectados a partir de sequenciamento genético, proveniente de amostras coletadas de pacientes dos estados do Amazonas, Bahia, Maranhão, Paraná, Rondônia, Minas Gerais e Alagoas, mostram, inclusive, que mutações importantes já aconteceram sobre ela e em seus ancestrais. Essas mutações frequentes podem, com o decorrer do tempo, gerar cepas mais resistentes à resposta imunológica e às vacinas. 

Ainda nos últimos dias, novas variantes têm surgido pelo mundo, apresentando essas e outras mutações, e vêm sendo estudadas a fim de verificar se também apresentam as mesmas características das anteriormente citadas. Entre essas novas variantes, identificadas geneticamente no último mês e ainda em estudo, está a VOI N.9 (Variante de interesse número 9). Essa foi detectada no Brasil entre novembro de 2020 e fevereiro de 2021, sendo que os estudos apontam prevalência de cerca de 3% relacionada a ela em relação ao total de casos de COVID-19 no Brasil. Ainda assim, há grande preocupação por parte dos pesquisadores, por ter uma das mutações mais importantes que podem contribuir para driblar o sistema imunológico daqueles que contraírem a doença. 

A comunidade científica trouxe um alerta nas últimas semanas sobre outra variante denominada Clade 20C, identificada na França. Essa informação chamou atenção para um novo problema, relativo à identificação pelo teste RT-PCR na versão atualmente utilizada naquele país, pelo qual não foi possível detectá-la. Essa dificuldade pode acarretar no que chamamos de resultados “falso negativos” nos testes, onde, mesmo que um indivíduo esteja infectado pelo vírus, o teste utilizado não é capaz de reconhecer a sua presença.

A partir do conhecimento clínico sobre todas essas variantes e de algumas pesquisas já publicadas, está sendo verificado que, além de uma maior capacidade de transmissão, elas parecem ter também uma importante relação com o agravamento dos casos. Para se chegar a conclusões definitivas sobre cada uma das variantes e suas características específicas, muitos estudos estão ainda em andamento e em breve nos trarão mais respostas.

 
"Mutações frequentes podem, com o decorrer do tempo, gerar cepas mais resistentes à resposta imunológica e às vacinas"

Como ficam as vacinas nesses casos?

As empresas farmacêuticas que desenvolveram as vacinas utilizadas em vários países estão fazendo testes de eficácia de seus imunizantes frente às novas variantes. Em relação à detectada no Reino Unido, estudos preliminares mostraram uma eficácia muito próxima àquela apresentada frente às cepas utilizadas durante os testes de fase 3. No entanto, em relação a variante da África do Sul, os testes iniciais já realizados por alguns dos fabricantes mostraram diminuição da eficácia global das vacinas, mas parecem ainda conferir proteção contra as formas mais graves da doença. Essas variações podem acontecer em função de cada diferente tipo de vacina e no princípio de seu desenvolvimento, podendo ser possível que alguns imunizantes tenham melhor desempenho contra elas. 

Em relação à P1, variante brasileira, as empresas estão também em processo de testagem para avaliar se existe manutenção ou perda de eficácia, sendo que os resultados preliminares apontaram que houve eficácia dos imunizantes das empresas AztraZeneca, Pfizer/Biontech e Sinovac (CoronaVac), frente à variante brasileira.
Há uma sinalização por parte dos fabricantes em desenvolver modificações em suas vacinas em prol das novas variantes, sendo possível que tenhamos que nos vacinar de tempos em tempos, para garantirmos imunidade contra elas.
 
É possível que tenhamos que nos vacinar de tempos em tempos para garantirmos imunidade contra as novas variantes

A situação da pandemia piorou em razão dessas variantes?

Com a rápida disseminação dessas variantes mais contagiosas pelo Brasil e pelo mundo, houve um agravamento da pandemia, como já vem sendo observado. Nessas situações, com o maior número de pessoas infectadas e precisando de atendimento hospitalar, ocorre a saturação do sistema de saúde. A consequência da falta de leitos e cepas possivelmente mais agressivas, podem levar ao agravamento dos casos e aumento do número de óbitos. Dessa forma, para evitar esse colapso, é fundamental fazermos o possível para diminuir a circulação do vírus e o surgimento de novas variantes.
 
Para nos prevenir dessas e de outras novas variantes, precisamos do maior número de pessoas vacinadas dentro do menor tempo possível e a diminuição da circulação de pessoas contaminadas 

O que podemos fazer para nos proteger delas?

Para nos prevenir dessas e de outras novas variantes, precisamos do maior número de pessoas vacinadas dentro do menor tempo possível e a diminuição da circulação de pessoas contaminadas em ambientes comuns. Utilizando dessas formas de prevenção, não damos ao vírus a possibilidade de desenvolver tantas mutações. Também é muito importante que continuemos tomando os outros cuidados que já vínhamos tendo até agora, ou seja, lavagem constante das mãos, uso de máscaras e distanciamento social.

Caso não tenhamos formas eficazes de contenção da circulação do vírus, o aparecimento de novas variantes vai tornar-se ainda mais frequente, podendo culminar em algumas delas ainda mais letais e futuramente resistentes às vacinas. 

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