15/06/2022 às 16h37min - Atualizada em 15/06/2022 às 16h37min

ARTIGO: Afinal, de onde vem a autoestima masculina? Por Jussara Prado

O homem brasileiro tem uma autoestima de milhões. No entanto, muitas vezes, ela é construída sob valores distorcidos

Por Jussara Prado
Foto: Reprodução
O homem brasileiro tem uma autoestima de milhões. Segundo uma pesquisa realizada com 8 milhões de brasileiros, apenas 3% dos entrevistados se acham feios e 44% se veem dentro “da média”. Ou seja, um em cada dois homens (47%) se consideram bonitos. A pesquisa sobre “O Que Pensa o Homem Brasileiro”, do Instituto Ideia, trouxe esses dados inéditos após 663 entrevistas realizadas em todo o país. 

Diante dessas informações, não é de se admirar com a baixa autoestima feminina. Afinal, somos ensinadas a cuidar das pessoas ao nosso redor, mas pouco nos é ensinado sobre o autocuidado e o afeto que precisamos ter conosco. Consequentemente, isso reflete em nossa autoestima no decorrer da vida. Entretanto, do que eu percebi durante minha atuação, enquanto Psicóloga Clínica com foco em Autoestima e Relacionamentos, as mulheres acabam se movimentando mais em busca de meios, como a psicoterapia, para trabalhar este quesito.

Estes homens foram questionados sobre a saúde mental e, pasmem, 16% deles disseram fazer terapia e 65% não veriam problemas em fazer algumas sessões. Em relação à inteligência, apenas 7% se veem inferiores, enquanto 28% se acham mais inteligentes que a média. Mas, a maioria se vê na média (65%), e estamos falando de 8 milhões de homens.

Se ter estima por alguém é ter um sentimento de carinho, apreço, afeição e afeto em relação a essa pessoa, e admirá-la e respeitá-la, reconhecendo o seu valor moral e profissional, autoestima não é só sobre se achar bonita(o) e gostar do que vê no espelho. É ter todo esse carinho, apreço, afeto, admiração e respeito por si mesma(o), reconhecendo o próprio valor por ser quem é.

Mas, esse processo de aprender a se amar não significa apenas aceitar quem se é, mas também a mudar comportamentos e hábitos autodestrutivos que aprendemos ao longo da nossa vida, que são o oposto do respeito a si mesma(o). E como nós mulheres podemos iniciar um processo de construir uma autoestima mais saudável, se a mentalidade e comportamento dos homens brasileiros ainda nos prejudica?

O tratamento que recebemos diz muito sobre o valor que nos é dado enquanto ser humano, como podemos ver através das informações levantadas. Dos entrevistados, 45% ainda veem a virgindade feminina como algo importante, mais importante até que a posse de armas (apenas 24% consideram a posse de arma de fogo algo importante). Além da referência que possuem de “mulher de verdade” ser a própria mãe com 36%, contra 6% das próprias esposas.

O mais triste de tudo isso, é saber que 43% destes homens escutam comentários machistas sem se incomodar ou se posicionar contra. Além dos 21% que, mesmo se incomodando, não contestam tais comentários. Mas, em relação à futebol, 85% deles torcem para algum time. Logo, podemos cogitar que é mais fácil o homem brasileiro se posicionar em relação ao time do que diante de uma mulher que sofre machismo.

Além da autoestima elevadíssima, somente um terço dos gatos apoiam o feminismo, enquanto 44% responderam que não apoiam o movimento. Movimento este, que também defende os homens da estrutura machista e patriarcal que os fere nas “exigências” de macho alfa.

O curioso é que nas entrevistas 58% dos homens responderam achar que o aborto deveria ser considerado crime. Isso num país onde mais de 5,5 milhões de crianças não possuem o nome do pai registrado na certidão de nascimento. Então neste caso, são contra o aborto feminino, porque o aborto masculino é amplamente realizado, apoiado e muitas vezes incentivado, né?

Até porque, o percentual de pais ausentes no registro das crianças no Brasil vem aumentando desde 2018. E apenas nos primeiros meses de 2022 já encontramos mais de 29 mil crianças sem o nome do pai no registro de nascimento. Se os homens (cis) engravidassem, a legalização do aborto já teria acontecido há muito tempo.

Tenho para mim, que os entrevistados são apenas homens cis héteros, pois ao serem questionados sobre temas da diversidade de gênero e sexualidade, um quarto destes não saberia lidar com um filho LGBT, 31% jamais dividiriam um quarto com um homem de orientação sexual diferente e 51% buscam ao máximo evitar “parecer gay” quando se arrumam. O significado de “parecer gay” não foi detalhado na prática, mas de qualquer forma já deixa explícito a LGBTIfobia existente em nossa sociedade.

Confesso que quando li tais informações coletadas, cheguei a questionar o público e até a época dessa pesquisa de tão absurdas que são as respostas. E me decepcionei demais ao saber que a pesquisa foi conduzida neste ano de 2022, entre os dias 5 e 11 de abril, coletando informações de homens a partir de 18 anos de todo o território brasileiro.

Entende-se, portanto, que a autoestima masculina é construída e alimentada diante da objetificação de corpos femininos e LGBTQIA+, da desvalorização destes como seres humanos e do enobrecimento de valores deturpados.

JUSSARA DORETTO BENETTI DO PRADO é psicóloga com foco em autoestima e relacionamentos. Instagram @psicologa.jussaraprado


Link
Notícias Relacionadas »
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Fale com NCG News!