27/03/2021 às 08h51min - Atualizada em 27/03/2021 às 08h51min

RESENHA: Uma piada cheia de verdade (e carregada de bosta), por Phellip Willian

O escritor e roteirista Phellip Willian analisa o livro ‘Desarranjo’, de Marco Aurélio de Souza, parcialmente inspirado em Ponta Grossa

Por Phellip Willian
Foto: Phelip Willian

Já faz um tempo que li ‘Desarranjo’ (2020, Penalux), mas queria muito falar dele. É um romance não só prazeroso pelo que sai dele, mas pelo que fica depois de instalada a sujeira.

Temos aqui uma autoficção, mas não do Marco Aurélio de Souza, o autor (ou talvez seja), e sim de uma personagem que escreve sobre si e investiga os motivos que o levam a escrever, odiar e, em suma, ser quem é. Não bastasse a frustração de não emplacar nenhum livro na cidade onde vive, o escritor precisa lidar com um término recente e com as teorias repetidas dos métodos de escrita, dicas para fazer e vender livros etc.

O enredo aponta para a tragédia, no sentido do herói não se dar bem, mas mantém os dois pés na comédia, na medida que tenta se livrar desse anelo de ser escritor pela repulsa a tudo aquilo que envolve o cotidiano, a escrita, o marketing do artista etc. Para isso, ele se agarra às alegorias fuleiras e escatológicas, abusando da sintaxe de latrina, dos detalhes fétidos dos corpos e da nojeira da cidade, revelando, assim, somente o quão risível é a sua vida. Isso tudo sem falar dos nomes das personagens (Gil Boquetti é pra acabar), os espaços públicos da cidade interiorana (parte dela inspirada em Ponta Grossa) e as caricaturas dos tipos comumente encontrados no Brasil de 2020.

O que o aparente vocabulário fecal e as situações embaraçosas do protagonista parecem camuflar é o exímio talento do autor (agora o Marco) em apresentar críticas, provocações e, talvez, lá no fundo, um lirismo próprio de um ser humano real – ele é contraditório, babaca, misógino, misantropo, em suma, um calhorda. Mas tudo isso é muito parecido comigo e com você, mesmo que a gente relute em aceitar essa indigesta condição.

Temos aqui um romance que descreve bem o quanto o gênero literário traz em si um milhão de outros textos. É polifônico até o talo, e, como alguém que curte escrever, não pude deixar de apreciar o exercício metalinguístico sobre a escrita. Por que escrevemos, qual é o caminho da escrita, o que é autoria, quais são os 12 passos do herói e por que diabos a gente só fala disso?

Temos aqui uma baita piada. E, como toda piada que se preze, tem um fundo cheio de verdade (e carregado de bosta).

PHELLIP WILLIAN é escritor e roteirista


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