29/03/2021 às 13h47min - Atualizada em 29/03/2021 às 13h47min

UEPG apresenta cinco argumentos contra o chamado "kit-covid"

Iniciativa faz parte da campanha 'Com Ciência, vamos vencer a pandemia'

Da assessoria
Como parte da campanha “Com Ciência, vamos vencer a pandemia”, a Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG) traz argumentos e a manifestação de especialistas e professores da instituição sobre o chamado “kit covid”. A Ciência garante: ainda não há medicamentos que tenham efeito de prevenção ou tratamento precoce de Covid-19.

O chamado “kit covid”, composto por drogas como a cloroquina, hidroxicloroquina, ivermectina e azitromicina, supostamente poderia ser utilizado como tratamento precoce para a doença causada pelo novo coronavírus. No entanto, esses medicamentos não têm eficácia comprovada sobre a Covid-19 e têm seu uso contraindicado por instituições como a Organização Mundial da Saúde (OMS), Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e Associação Médica Brasileira (AMB). A contraindicação não impede que o médico prescreva, após informar ao paciente que se trata de um tratamento off-label, ou seja, fora das indicações da bula. Os remédios, caso usados indiscriminadamente, podem causar graves efeitos colaterais, como arritmias cardíacas, danos ao fígado, desenvolvimento de superbactérias e até dificuldade para acordar da sedação.

Esta matéria faz parte de uma campanha capitaneada pela Universidade Estadual de Ponta Grossa sobre a importância da Ciência para o combate à pandemia. Como os temas abordados são alvo frequente de notícias falsas, as publicações nas redes sociais da UEPG (Facebook, Instagram e Twitter) trazem fontes confiáveis e informações seguras divulgadas em estudos científicos ou por órgãos reguladores.

Argumentos

1) Falta de evidências científicas de qualidade sobre o uso dos medicamentos do “kit de tratamento precoce” para Covid-19

Como apontam as professoras Jaqueline Carneiro e Ana Paula Veber, do departamento de ciências farmacêuticas da UEPG, os principais medicamentos oferecidos no “kit covid” não possuem eficácia comprovada conta Covid-19. A Ivermectina, antiparasitário, foi capaz de inibir o crescimento do vírus somente em estudos utilizando cultura de células, mas em doses muito maiores do que as usadas em humanos. “Além disso, em estudos com seres humanos, evidências não demonstram benefícios ou piora dos quadros com o medicamento”, reforçam as professoras.

Ainda quanto à ivermectina, a médica infectologista Gabriela Gehring aponta que “a dose para potencial benefício encontrado in vitro é 100 vezes a utilizada na prática clínica. Além disso, há limitações nos ensaios randomizados disponíveis e estudos de corte retrospectivos, devido à amostra pequena, diferentes esquemas de doses, medicamentos associados (hidroxicloroquina e azitromicina) e desfechos mal definidos”.

Da mesma forma, os medicamentos antirreumáticos hidroxicloroquina e cloroquina não mostraram benefícios aos pacientes hospitalizados, apesar de apontarem alguma eficácia em estudos em células. “A hidroxicloroquina não melhora a evolução clínica e aumenta o risco de mortalidade e aumento do tempo de internação, segundo o estudo Recovery. Estudo brasileiro publicado no New England Journal of Medicine, analisando a associação da hidroxicloroquina com a azitromicina em pacientes com doença leve e moderada, também não mostrou benefício”, relata Gabriela. 

No caso da azitromicina, antibiótico utilizado para tratamento de infecções bacterianas, os estudos clínicos realizados até o momento não mostraram nenhum benefício clínico significativo no tratamento da Covid-19.

2) Problemas de segurança relacionados ao uso irracional de medicamentos

“O uso inadequado de medicamentos pode trazer sérios prejuízos ao sistema de saúde – o qual não precisa de maiores problemas no contexto atual. Por exemplo, existe forte recomendação contra o uso profilático de antibióticos pela OMS, pois pode aumentar as taxas de resistência bacteriana, podendo ter consequências graves”, apontam as professoras Jaqueline Carneiro e Ana Paula Veber.

No caso da cloroquina e hidroxicloroquina, os eventos adversos são expressivos, especialmente os efeitos cardiovasculares. Os medicamentos podem causar arritmia cardíaca, agravada ainda mais no caso da Covid-19, já que a doença causada pelo novo coronavírus também afeta o coração, provocando inflamações do músculo cardíaco e trombose nos vasos e tecidos.

Outros órgãos afetados pela Covid-19 e que podem ser ainda mais comprometidos pelo uso indiscriminado de medicamentos são os rins. A ivermectina, caso usada em altas doses, pode causar lesão renal, além de depressão do sistema nervoso central e lesão hepática.

3) Várias organizações mundiais não recomendam o uso dos medicamentos citados

Posicionam-se contra o “tratamento precoce” a Food and Drug Administration (FDA), Organização Mundial da Saúde (OMS), o Centro de Controle e Prevenção de Doenças dos Estados Unidos e da Europa, Agência Europeia de Medicamentos (EMA), US National Institutes of Health, Infectious Diseases Society of America, National Health Service (o serviço de saúde pública do Reino Unido), entre outros. No Brasil, dentre as entidades que já se posicionaram contra o uso se destacam a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a Sociedade Brasileira de Infectologia, o Conselho Federal de Farmácia e Associação Médica Brasileira.

A médica infectologista Gabriela Gehring, que atua no Hospital Universitário da UEPG, na Santa Casa de Misericórdia de Ponta Grossa e no Hospital Municipal de Ponta Grossa, reforça que a maior parte das instituições global e nacionalmente respeitadas não recomenda o uso do “kit covid”. “Nenhum grande grupo europeu, americano ou brasileiro indica essas medicações para tratamento de pacientes com Covid-19. Grandes hospitais como Sírio Libanês, Albert Einstein e HC-USP também não recomendam”, aponta. 

Em nota publicada nesta terça (23), a Associação Médica Brasileira (AMB) defendeu o banimento da utilização de fármacos como hidroxicloroquina/cloroquina, ivermectina, nitazoxanida, azitromicina e colchicina, entre outras drogas, no tratamento da Covid-19. Segundo o documento, essas medicações “não possuem eficácia científica comprovada de benefício no tratamento ou prevenção da Covid-19, quer seja na prevenção, na fase inicial ou nas fases avançadas dessa doença”. O texto é assinado por dezenas de entidades médicas, entre elas a Associação de Medicina Intensiva Brasileira e a Sociedade Brasileira de Infectologia.

4) Uso de recursos públicos

Como indicam as professoras do Departamento de Ciências Farmacêuticas, a verba pública destinada ao controle da pandemia é limitada. Por isso, as especialistas defendem que as decisões devem ser tomadas para priorizar a utilização de recursos públicos com estratégias validadas, como a vacinação.

Em Ponta Grossa, vereadores apresentaram o Projeto de Lei Municipal 35/2021, que busca disponibilizar gratuitamente kits de medicamentos para o “tratamento precoce” de Covid-19 na rede SUS. Em nota divulgada nesta quinta-feira (25), a Associação Pontagrossense de Farmacêuticos se posicionou contra o projeto de lei. A nota da entidade reforça: “Nossa solicitação é de que todos os esforços dos entes e representantes públicos municipais sejam unânimes em direção à possível aquisição e garantia de acesso às vacinas para toda a população de Ponta Grossa. Havendo restrições ou impedimentos legais para que os recursos públicos municipais sejam utilizados para a aquisição de vacinas contra a Covid-19, que estes recursos sejam destinados para as medidas reconhecidas cientificamente como eficazes para a manutenção e fortalecimento dos serviços de saúde de Ponta Grossa, como: aquisição de equipamentos de proteção individual, equipamentos e materiais de suporte (respiradores, monitores multiparamétricos, entre outros) e medicamentos utilizados para intubação (bloqueadores neuromusculares, sedativos e analgésicos)”.

5) Procura tardia de atendimento médico; alto número de pacientes hospitalizados que fizeram uso destas medicações

Segundo a infectologista Gabriela Gehring, muitos pacientes internados fizeram uso destas medicações, o que não evitou a internação nem o agravamento dos quadros clínicos. Em outros hospitais, a situação relatada é a mesma. Diretores de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) de hospitais de referência como o Hospital Albert Einstein e o Hospital de Clínicas de São Paulo reforçam a gravidade dos casos e os altos índices de pacientes graves que tomaram o “kit covid”. Além disso, os médicos relatam que pessoas que fazem uso do “tratamento precoce” tendem a procurar atendimento médico mais tarde, por acreditar que estão protegidas do vírus. 

“Infelizmente, ainda não temos nenhuma medicação realmente eficaz para o combate do vírus”, alerta a médica infectologista. “A melhor forma de prevenção é o uso de máscaras, distanciamento social, higiene das mãos e vacinação”.

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