31/08/2022 às 16h28min - Atualizada em 31/08/2022 às 16h28min

ARTIGO: CoMo A cIêNcIa ExPlIcA nOsSa CaPaCiDaDe De LeR? Por Francine Baranoski Pereira

Devido à arquitetura ocular de alta resolução, nossa percepção não depende do tamanho da palavra ou do número de letras. Os movimentos oculares, chamados de sacadas e fixações, realizam os ajustes para percorrer as palavras

Por Francine Baranoski Pereira
Foto: Divulgação
É provável que você conseguiu ler este título sem nenhum problema, não é mesmo?  Em nossa experiência como leitores jamais encontramos letras em apresentação alternada, mas conseguimos ler sem nenhuma dificuldade porque o nosso sistema visual detecta as letras e à medida que o olho se desloca durante a leitura por meio dos chamados movimentos oculares, o nosso cérebro normaliza as letras de maneira tão eficaz que lemos sem comprometimento no entendimento e até mesmo não percebemos estas mudanças de alternância. 

A Psicologia cognitiva a pouco menos de meio século tenta desvendar como lemos, como reconhecemos as palavras, o acesso a seu sentido e a sua pronúncia. Hoje se sabe que a nossa retina, mais particularmente a região central, conhecida como fóvea capta a informação visual por meio de pequenos e rápidos movimentos oculares, quatro ou cinco por segundo, sendo capaz de identificar e reconhecer as letras como um tipo de scanner. 

Devido a esta arquitetura ocular de alta resolução, nossa percepção não depende do tamanho da palavra ou do número de letras. Os movimentos oculares, chamados de sacadas e fixações, realizam os ajustes para percorrer as palavras. Assim, quando prepara o movimento dos olhos, o cérebro faz as adaptações necessárias sobre o tamanho das palavras e a distância que deverá ser percorrida, de maneira a avançar de sete a nove letras por sacada. Isto tudo ocorre sem qualquer esforço consciente e tão rápido que dura apenas uma fração de segundo.

Você que chegou até aqui nesta leitura deve estar pensando que é realmente extraordinária a nossa capacidade de leitura e surpreendente a sua eficácia! E digo que sim, é fascinante conhecer esta engenharia da leitura! E ainda tem mais... Agora que você adquiriu conhecimento sobre como lemos, você acredita que há alguma dificuldade, do ponto de vista da retina ao lermos palavras escritas em fontes, estilos e tamanhos diferentes, maiúsculas, minúsculas, traçadas a mão ou digitadas? 

Para responder a esta pergunta, imagine que você vai ler uma notícia em que o título está em letras grandes e a notícia em letras menores, há também palavras e frases no decorrer da notícia em CAIXA ALTA, em caixa baixa, em itálico, em sublinhado, em negrito e em manuscrito. Por este exemplo, você já consegue presumir se encontraria alguma dificuldade. É possível que durante a leitura deste exemplo e pensando em sua leitura de uma notícia você tenha lido com facilidade, porque nossa sistema visual resiste a múltiplas alterações na leitura e faz distinções em ambiguidade e variação para ler. Essas distinções são resultados do trabalho de neurônios que reconhecem, por trás das formas muito distintas, a identidade das letras. 

A explicação para esta incrível capacidade de leitura é a de que nosso cérebro busca a invariância. Trata-se de localizar o que não varia, a sequência das letras, apesar das diversas formas em que possam estar as letras e palavras. Por isso, conseguimos ler sem problemas títulos com letras maiores, legendas com letras menores ou palavras em caixa alta ou em caixa baixa ou alternadas ou em itálico, em sublinhado, em negrito ou manuscrito.

Agora que você sabe que a capacidade de ler ocorre através de um sistema visual altamente competente e neurônios que desprezam grandes diferenças para reconhecer a identidade das letras, é importante enfatizar que, a leitura não é só isso: é uma atividade de adivinhação que tem início pelo reconhecimento de um código, de uma representação gráfica e tem como fim a compreensão do que foi lido, mas isto é um assunto para outra conversa. 

Francine Baranoski Pereira é professora linguista e doutora em Educação. É pesquisadora nas áreas de Ensino e Aprendizagem pela UEPG e Linguagem, Ensino e Cognição pela UTFPR.

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