02/04/2021 às 15h06min - Atualizada em 02/04/2021 às 15h06min

CRÔNICA: "Viagem do Corvo", por Luiz Fernando Cheres

...apenas na estrada fui compreender que nossas quatro cadelas também faziam parte da bagagem. Na Kombi. E ainda os dois canários, o gato e o porquinho-da-índia...

Por Luiz Fernando Cheres
Foto: Pexels
Minha mulher comprou uma Kombi. Só que é usada. Muito usada. Daquelas com repartido no para-brisa, mas ajeitadinha por dentro, o antigo dono fez uma bela reforma. Com duas crianças em casa, a patroa estava cansada de viajar no aperto, na maldita economia de bagagem para acomodar tudo no porta-malas do Gol. E estávamos às vésperas das férias…

Já no primeiro encontro, olhei nos olhos da Kombi. Pareciam olhos de coruja cigana, oblíquos e dissimulados. Não gostei.

– Você dirige a Kombi, Cheres!

– Mas esse ônibus é teu.

– Não, eu vou com o Gol. Você leva as crianças na Kombi. E não é ônibus, é Kombi. Kom-bi!

– Ué? Você vai com o Golzinho se agora a gente tem esse ôni… essa Kombi?

– É que não coube toda a bagagem lá.

Incrédulo, examinei a monstra: entupida de tranqueiras. E o Golzinho até inchado. A Yonara sempre exagera nas malas.

– Cheres, entenda, são duas semanas fora!

Entendi. Mas apenas na estrada fui compreender que nossas quatro cadelas também faziam parte da bagagem. Na Kombi. E ainda os dois canários, o gato e o porquinho-da-índia. Não tive como reclamar, a Yonara já estava quilômetros à frente.

– Este ônibus é lento mesmo.

– Kombi, pai. Kombi.

Sol de rachar o bico, rodovia deserta, e me estoura um pneu. Nunca troquei pneu de ônibus, mas deve ser igual ao do Gol…

Não era. Malditos parafusos enferrujados, me esfolei de tanta força. Foi quando ouvi, ao longe, os latidos. Minhas cadelas tinham fugido do ônibus. Eu chamo, grito, imploro, corro, porém, quanto mais corro, mais elas fogem.

Desolado, deito no asfalto, aquela vontade de chorar de raiva. Aí as santinhas voltam, de rabo balançando, e me lambem amorosamente o rosto suado. Retornamos os cinco para o ônibus, a verdadeira família unida. Mas, com cara de idiota, vi as crianças brincando numa poça de lama à beira da estrada, cobertas de barro, jogando bosta de vaca uma na outra. Nem deu tempo de pensar, e as cadelas estavam com as crianças.

Não quero repetir aqui os palavrões que gritei. Dei banho nas crianças e nas cadelas com a água mineral que levava para consumir nas férias. Só faltou água para o meu banho. Poucos quilômetros depois, também faltaria água no radiador. E agora?…

Fiz xixi no reservatório do radiador.

E a coisa funcionou.

Mas logo o ônibus parou de vez. Morreu. Mortinho da Silva. Nem sinal de vida. Mais previdente, tranquei as cadelas no estrupício e saí com as crianças em direção a um barzinho de beira de estrada, a uns 20 ou 30 metros de onde empacáramos.

Problema: o bar era daqueles com biombo na entrada e, na noite, por certo teria luz vermelha. Fomos recebidos por umas mocinhas econômicas na roupa, e que não esconderam a surpresa de ver um sujeito entrando ali com duas crianças tão pequenas.

– Eu só preciso de um mecânico…

– Baby, chame o Renato da oficina. E leve as crianças junto, enquanto o doutor aqui me paga uma cuba! – disse a polaquinha que parecia gerenciar o estabelecimento.

– Não, as crianças ficam!

– Que nada, venham com a tia – insistiu a tal Baby, balançando a cinturinha de Kombi lá de dentro de um minúsculo vestidinho que não lhe escondia banhas nem estrias – venham com a tia enquanto o papai se diverte um pouco!

Naquele exato momento, decerto preocupada pela minha demora na estrada, quem aparece em tão casto local?… Exatamente: ela, a Dona Encrenca.

– Não creio, seu Cheres! Então é só eu virar as costas e o senhor cai na gandaia! Jaguara, podia ao menos respeitar as crianças, seus filhos, entende, seus filhos!

A Yonara bem que acreditaria na minha história se, quando chegássemos à Kombi, a danada não tivesse funcionado. Mas funcionou perfeitamente a malandrinha. A viagem toda. E continua funcionando, oblíqua e dissimulada, nunca deu pane nem despesa. Até hoje. Estou caidinho por ela…

LUIZ FERNANDO CHERES é escritor, autor de ‘Um Beijo Longe dos Lábios’ e ‘Amar não é Preciso’. Ocupa a Cadeira nº 11 na Academia de Letras dos Campos Gerais.

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