03/04/2021 às 15h11min - Atualizada em 03/04/2021 às 15h11min

CRÔNICA: "Um match em Palmeira", por Rogério Geraldo Lima

O 'match', como seria de supor, terminou em confusão generalizada. Por sinal, uma das maiores de todos os tempos nos limites dos rios Forquilha e Monjolo

Por Rogério Geraldo Lima
Foto: Freepik
No Estádio João Chede, propriedade do Ypiranga Futebol Clube, de Palmeira, há 100 anos a bola rola no gramado e uma testemunha está lá desde o início desta história. É a arquibancada de madeira, em estilo arquitetônico inglês, um bem tombado como patrimônio histórico do Estado do Paraná, com episódios alegres e tristes impregnados em suas tábuas e vigas.

Os arquivos das memórias foram já deletados pelo implacável dedo do tempo. Imagino então um 'match' de futebol dos primórdios, quando um polaco grandalhão inflava o peito para não ser vazado jogando de 'goal keeper', que um mulatinho ligeiro distribuía dribles desconcertantes e passes precisos, atuando como 'center half', e que um avantajado alemão fazia gols de cabeça e de canela na posição de 'center forward'.

O 'match', como seria de supor, terminou em confusão generalizada. Por sinal, uma das maiores de todos os tempos nos limites dos rios Forquilha e Monjolo. Na etapa final, quando faltavam poucos minutos para o fim do prélio, o placar marcava 3 a 3 e o mulatinho fazia carnaval, driblando adversários de um lado para o outro, quando foi violentamente atingido por um beque adversário. 'Foul' apitado pelo árbitro. Sem conter a dor, o jogador levantou-se e, célere, viu que o alemão sinalizava. Com precisão, colocou a bola na cabeça do avante, que a mandou para o gol. Adversários correram para reclamar ao apitador a invalidação do gol por 'offside'. Porém, o 'referee', com cara de poucos amigos, incontinenti, deu como válido o 'goal'.

Aí, acabou o jogo e seguiu-se um corre-corre nunca antes visto. Voadora e rabo-de-arraia para todo lado. O goleiro polaco acertou com a mão espalmada – e que mão! – a cara de um adversário que se atreveu desafiá-lo e terminou estirado fora do campo. O alemão autor do gol fugiu, perseguido por torcedores do 'team' adversário que o alcançaram, atingindo-o na região glútea com vários 'kicks'. “Parrem de chutarrr meu punda”, implorava, choroso.

O mulatinho, sagaz, desapareceu em desabalada carreira após transpor, num 'jump', os trilhos da estrada de ferro. Permaneceu embrenhado no mato durante dias, tomando para si a culpa pelos acontecimentos daquele domingo de fuzarca.

A ficção ganha vida com o futebol e suas histórias, dada a riqueza cultural do nobre esporte bretão e da arquibancada centenária do Estádio João Chede. Não só de futebol o futebol vive, mas também é, há incontáveis décadas, pretexto e fonte inspiradora para a literatura. Como fez aqui este 'writer'.

E trila o apito final!

ROGÉRIO GERALDO LIMA é empresário, redator e radialista em Palmeira

* Esse texto faz parte do projeto 'Crônicas dos Campos Gerais', promovido pela Academia de Letras dos Campos Gerais (ALCG). Para participar, clique aqui

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